terça-feira, 16 de agosto de 2022

Poser (2021)


Com passagem por diversos festivais de Estados americanos, Poser realizado pela dupla Ori Segev e Noah Dixon é uma produção independente do estúdio Loose Films, que se insere no atual cenário de música underground em Columbus e reúne alguns artistas profissionais dessa cena. Começa em passos lentos como um drama, tal como sua protagonista, Lennon Gates (Sylvie Mix), mas conforme avança converge drasticamente com o thriller.


Dividido em 8 capítulos, Lennon nos é apresentada como uma mulher introvertida na faixa dos 20 anos, com visual descolado, um emprego num restaurante e atitudes reclusas. Na abertura faz uma gravação sem autorização numa galeria de arte, e afirma estar começando um podcast, mas com isso mais parece estar acumulando uma coleção pessoal de relatos e leva uma vida afastada da família, mantendo um vago contato apenas com a irmã pouco receptiva, Janie (Rachel Keefe), além de um peixinho dourado. Ela é atraída pela indústria de música independente pela imagem de autonomia e autenticidade com a criação de material que esses artistas vendem. Um dia, ouve um disco novo da banda Damn the Witch Siren e fica seduzida pelo som, e especialmente pela dona da voz, Bobbi Kitten, que se apresenta ao lado de Z Wolf, um músico de identidade desconhecida por usar uma máscara de lobo. O que a inspira a investir em seu projeto de podcast, tendo um primeiro contato relevante com Micah (Abdul Seidu), pra então finalmente entrar em contato com Kitten. Sexy e com ar de mistério, a cantora preenche o vazio por atenção de Lennon, que muito interessada começa a se jogar mais nisso. Há uma tensão sexual entre elas, mas sua relação toma um outro rumo.


O roteiro de Noah Dixon traz um jogo de perspectiva: nós seguimos Lennon, ignoramos os pequenos sinais de comportamento suspeito e acreditamos que a conhecemos, para então a partir que a relação dela com Kitten se complica, estarmos diante de uma pessoa diferente, é quando cai a máscara de poser. Em determinado momento é mencionado a Tack Gallery, um antigo abatedouro/fábrica de carne abandonado próximo das linhas de trem que se tornou um salão para eventos de músicos, até um terrível incidente. Uma informação que se torna mais relevante com o decorrer.

O cuidado de som e escolha na trilha sonora de Adam Robl e Shawn Sutta são bem pontuados, que ritmam o avanço narrativo. Kitten e Gates têm bons momentos de química, especialmente uma com mímica. Mas eis o grande problema, na tentativa de ser subversivo, Poser não chega a lugar nenhum em seu desfecho. É um estudo de personagem que sublinha sobre os alertas, mas quando parte para uma mudança radical não parece mais coerente, com menos tempo para se assumir um thriller de obsessão. Como esse cenário de artistas de mindset entediantes e engajados, é falsamente provocativo para explorar dualidades e ações morais negativas.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Trailer: Triangle of Sadness (2022)

E o novo vencedor da Palma de Ouro, Triangle of Sadness do Ruben Östlund (Força Maior e The Square - A Arte da Discórdia) acaba de ganhar trailer. Com uma divulgação que já provoca (literalmente) reações do que a gente deve conferir no filme. Caótico e REPULSIVO. Como uma mistura de The White Lotus com Le Grand Bouffe (1973)... e oops, depois da frustração tremenda com Crimes do Futuro, quanto menos se esperar e souber de um título badalado pelos franceses, melhor.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

O Telefone Preto (2021)


Eu não lembrava de "O Telefone Preto", o conto presente na antologia "Fantasmas do Século XX" do Joe Hill, embora tivesse certeza que tinha lido, e o relendo entendi porque havia esquecido. O objeto de comunicação fantasmagórico e uma pequena passagem envolvendo a irmã do protagonista eram as únicas coisas que podiam ter ficado na minha memória, se tivessem sido utilizados pra alcançar um impacto ainda maior, o que não acontecia embora fossem elementos que provocassem a imaginação. Depois de quase um ano desde a estréia no Fantastic Fest, a Universal lança em VOD (este texto data originalmente em 14 de Julho) o filme, depois de uma série de adiamentos que já haviam tirado qualquer interesse meu em conferi-lo... E permaneceria assim se não o maldito acaso da oportunidade do momento. 


Ambientado na década de 70, Scott Derrickson, C. Robert Cargill e Joe Hill adaptam o conto preenchendo de bons argumentos em torno do background de Finney (Mason Thames) mas escrevendo-os no roteiro da pior forma possível, no sentido americano de cinema de ser. A relação dele com a irmã, Gwen (Madeleine McGraw), que é uma graça de personagem, é marcada por ter um elo bastante interessante que flerta com o universo mítico do Stephen King, mas que vira um elemento ultra-mega-expositivo aqui. Sendo cheio de coisas explicadinhas demais em torno disso, quando poderia ter sido uma informação explorada menos excessivamente, que toma mais tempo de tela que o mascarado misterioso do Ethan Hawke, que pela capacidade do ator e os ótimos designs das máscaras, poderia torná-lo um novo ícone do terror. 


Mas não é o que vem a ser, enquanto pioram cada vez mais a coisa sobrenatural da história, com uma solução de representação fantasma lamentável, que é repetido de forma abusiva. Poderiam ter dado mais valor a construção cênica mais básica e eficiente de todas: um porão decrépito, um garoto, uma chamada, sons do além e sussurros, mas Derrickson de alguma forma com o passar dos anos desaprendeu a dirigir um filme. Talvez a Marvel seja mesmo capaz de provocar esse tipo de sequela nas pessoas. O pior é que todo o acréscimo narrativo ainda não é útil para contornar o twist ruim que dão continuidade do conto. Jeremy Davies como o pai abusivo, e James Ransone como Max, um desajeitado obcecado com o rastro de desaparecimentos são a verdadeira definição do que ingleses gostam de chamar por "awful" e "messy" atuando, ao contrário do elenco infantil que é bem competente. O melhor momento acaba por ser quando Robin Arellano (Miguel Cazarez Mora) fala com tanto entusiasmo de O Massacre da Serra Elétrica (1974). A cena final que existe pra encerrar uma coisa de representação da construção de herói em cima do garoto no ambiente escolar, não poderia ser mais irritante. E óbvia, boba. Como todo o resto.

La Pasajera/The Passenger (2021)


Uma mulher que surge como uma força fantasmagórica na abertura de La Pasajera, dá um fim macabro a um casal de turistas. Realizado pela dupla de diretores, Raúl Cerezo e Fernando González Gómez, essa produção espanhola premiada no Festival de Canarias Isla Calavera, que indica inicialmente uma típica história sobrenatural de estrada é um excessivo, mas divertido filme de gênero ao mesclar comédia, ficção-científica e horror.


A ação gira em torno da van de Blasco (Ramiro Blas), um quarentão que já teve seus dias de glória, que não consegue calar a boca, e suas três passageiras, Mariela (Paula Gallega), Lidia (Christina Álcazar) e a filha adolescente, a rebelde Marta (Paula Gallego). O jeito de machão à moda antiga de Blasco causa atritos as mulheres, mas também conquista a afeição da garota, por compartilharem cicatrizes do passado. Marta vive sob uma conflituosa relação com a mãe, protetora e preocupada. As motivações para os personagens estarem ali são mínimas, os argumentos são poucos mas ainda sustentáveis pelo roteiro de Luis-Sánchez Polack, mas não importa, quando durante um momento de exaltação o motorista bate com o carro numa mulher no meio da pista, o caos acelera a partida. Lidia e Blasco entram em discussão, enquanto Mariela cuida da desconhecida inconsciente, que aos poucos manifesta ações que dão início ao puro horror, os forçando a entrarem numa corrida pela sobrevivência noite adentro.


Remetendo a cults como A Noite dos Arrepios (1986), La Pasajera passa por uma alteração drástica, com momentos de nojeira e body horror com o desdobramento narrativo em torno da origem da passageira ferida. Entregar mais explicações a cerca disso seria errado, mas é uma revelação divertida mesmo que pareça deslocada do que se pensou na abertura. É um trabalho competente feito por amantes do trash e produções B, com excessos no humor caricatural, e na finalização, mas que ainda garantem um passatempo descomprometido.

The Righteous (2021)


Um padre em conflito com a própria fé, após um estranho o colocar em dúvida sobre a natureza divina dela. Essa era a premissa de Luz de Inverno (Nattvardsgästerna, 1963), uma das obras mais celebradas de Ingmar Bergman, que anos atrás Paul Schrader revisionou em First Reformed (2017). O filme sueco é um dos grandes exemplares a dialogar sobre o dilema da espiritualidade em oposição aos nossos sofrimentos carnais. Eis que agora surge o curioso título canadense The Righteous, com direção de Mark O'Brien (ator de Halt and Catch Fire e que pode ser visto em Blue Bayou, também do ano passado), e filmado em preto e branco que antes de conferir já me parecia ser uma grande homenagem à ele. Tendo sido bastante premiado nas edições passadas do Grimmfest e Fantasia Film Festival.

A dupla Henry Czerny e Mimi Kuzyk interpreta o casal Frederik e Ethel Mason, que acabam por passar por uma tragédia ao perder a filha, ainda criança. Frederik é um ex-padre que largou o santo posto quando acreditou ter encontrado o amor em Ethel, e agora sofrem um grande abalo na relação, ainda em processo de descobrimento sobre como lidarem com a morte de sua única cria, recebendo em casa o consolo de vizinhos e pessoas próximas. Eles vivem numa área de mata no que parece ser um pequeno vilarejo, como a civilização de aspecto inóspito no grande filme de Bergman. Uma noite surge um jovem estranho com o tornozelo machucado, que eles não esperavam ter de acolher na residência. Aaron (o próprio O'brien) se apresenta como um aventureiro azarado bastante agradável, cativando logo a afeição materna de Ethel, mas sua ida até Frederik tem um objetivo secreto que espera revelar-lhe em breve. 

Aos 38 anos, Mark O'Brien que guarda uma semelhança indissociável ao norte-americano Evan Peters, em sua estréia na direção investe em trabalhar em cima do ar de tensão e mistério que envolve seus personagens, bastante preocupado em sustentar a dinâmica entre si e os atores. Apesar da premissa, ele que vem de uma família católica confessa não ter pensado em fazer deste um relato de contestamento de fé, mas ainda é um grande elemento que move o personagem de Czerny, que interpreta tão bem em seu martírio silencioso pelo tormento mental causado por lembranças do passado. Desde a escolha da fotografia monocromática, como não pensar que esta é uma ilustração da luta entre a luz e as trevas? Visualmente é menos bem planejado que um filme de Carl Thedor Dreyer, que admite ser também uma grande referência para sua realização, mas a cinematografia de Scott McClellan ainda é eficiente. Quem Tem Medo de Virginia Woof? (1966), é outro referencial que pode facilmente vir a passar pela mente dos telespectadores pela concentração no trio. A ligação dos protagonistas com Doris (Kate Corbett), é outro ponto que permite um momento de brilho nessa interação performática. 

Com a bomba armada trazida por Aaron em forma de desafio e segredo, The Righteous se encaminha para um confronto final explosivo. E apesar de toda boa composição do diretor, ainda não é capaz de conter todas as ótimas ideias que tinha aqui, e diria que é muito por causa de ficar no meio termo em fazer disso uma luta espiritual mais aberta, algo que Bergman não tinha receio em representar. O horror vem em pequenas doses, muito como reflexo da aflição dramática em que está a família Mason, num geral é um produto estranho para o grande público digerir ou se interessar, tendo conseguido uma distribuição bastante pequena comercialmente. Mas há uma audácia interessante no que O'Brien propõe, o que para um diretor inicialmente é suficientemente marcante e faz deste um belo início para a sua carreira. E um exemplar independente chamativo.

The Righteous pode ser conferido aqui com legendas com tradução automática.

Men (2022)


Autor de 'A Praia', o inglês Alex Garland é um dos nomes de maior ascensão na indústria cinematográfica nos últimos 20 anos, dispensando apresentações desde que sua estréia na direção, Ex-Machina (2015) com duas indicações no Oscar, se tornou um dos grandes títulos referenciais na ficção-científica deste século, ao discutir a posição do homem na evolução tecnológica que possivelmente o aniquilará no futuro. Após se aventurar na Paramount com o desastroso Aniquilação (2018), e na TV com a série Devs (2020), ele retorna a parceria de sucesso com a A24 com Men.

Em Men, junto de Harper (Jessie Buckley) somos levados ao cenário bucólico de um pequeno condado britânico, quando a mulher aluga uma residência em busca da tão sonhada tranquilidade que só o campo pode oferecer. Mas o que não conseguirá estando atormentada por visões violentas envolvendo o marido, James (Paapa Essiedu), e pouco a pouco descobrindo a presença hostil que os habitantes locais (todos homens) representam. A única figura (feminina) que a oferece consolo é a de Riley (Gayle Rinkin), a amiga com quem conversa por vídeo-chamada por horas. Sua busca por paz interior está com horas marcadas para chegar ao fim quando começar a notar um caminhante nu (interpretado por Rory Kinnear, assim como todos os outros homens que virão a seguir).


 Apresentada a narrativa inicial, agora posso falar: a primeira hora de Men é uma dos mais idiotas e grosseiras que um filme poderia alcançar em termos de linguagem destes últimos anos no cinema. Desde a memória traumática com a morte que Harper possui, como um corte abrupto esfregado na cara do público para apontar o estado de luto, a criação de simbolismos numa ida a igreja, que apontam para uma mistura de cristianismo e paganismo irlandês, até a forma como quer mostrar cada homem no caminho da personagem como um possível agressor ou violentador. É estupidamente progressista por esse caminho de consciência social e de gênero, temas que viraram sinônimo da A24. Garland não é nada sutil, e isso ao menos o leva a ter um êxito mais afrente.


É assim que o mundo de Harper colide com a misoginia: o estranho pelado a segue sem motivo aparente, as forças policias não a dão ouvidos e o padre Geoffrey (Kinnear), com um toque físico avança limites sobre seu corpo durante uma conversa, além de reproduzir falas que apontam como não compreende p***a nenhuma a respeito dela, ou de ter empatia pelo seu sofrimento. O contraste da relação com a natureza plácida, imponente e que remete as formas de representações mais puras e carnais, pelo estado animalesco natural do homem aponta ao menos duas inspirações óbvias na fotografia de Rob Hardy, colaborador de sempre do diretor, o primeiro é Tarkovsky, e não seria a primeira vez desde que forçando uma linha de pensamento podemos dizer que Ex-Machina, é o Solaris (1972) do inglês, assim como Aniquilação é Stalker (1979). Bobagem verdadeira. E o dinamarquês Lars Von Trier, o popstar do cinema transgressor, como não pensar em seu Anticristo (2009)? Mas digo que essa é uma tentativa de fazer uma versão moderna de A Hora do Lobo (1967), a mais extrema aventura no horror simbólico e psicológico que Ingmar Bergman nos presenteou.

Se Men se prova ineficiente no quesito de instigar reflexões de temas que estão saturados no cenário do cinema atual, é ironicamente o caminho oposto deste tipo de conceito (o de oferecer imagens e pensamentos em segundo plano, camuflado e cheio de interpretações), que Garland tem sucesso: o confronto com o horror físico, violento e grotesco. Os 40 minutos finais são os mais aproveitáveis para os entusiastas do bizarro, quando Harper vive horas de puro terror na casa quando ocorre uma invasão. Chega a ser indescritível o que acontece nesse ponto, e o que quase retirou minha rejeição pelo filme.


Se falou muito de Rory Kinnear, mas mesmo gostando dos momentos finais, não consigo ver o ator incorporando uma força verdadeiramente ameaçadora, isso se deve muito pelos personagens pessimamente escritos, quanto pela forma como Buckley reage na pele da personagem, que me fez chegar a conclusão de que Harper mesmo confusa e melancólica, é impenetrável. A cena final que remete a dois grandes sucessos do gênero em 2019, Midsommar e Ready or Not garante um sorrisinho. Ou talvez esse seja apenas o pior papel da atriz irlandesa, que este ano pode estar melhor sendo cantora, como podem conferir aqui.

Men chega nos cinemas nacionais através da Paris Filmes em Setembro, com o subtítulo "Faces do Medo" (argh). Mas se pode ver aqui legendado.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Broker (2022)


Depois de vencer a Palma de Ouro e chegar ao Oscar com Assunto de Família (2018), o japonês Hirokazu Koreeda começou a sondar projetos internacionais, tendo se aventurado primeiro na França com La Vérité (2019), ao lado das grandes estrelas do país, Juliette Binoche e Catherine Deneuve, e agora retorna com Broker/브로커 realizado na Coréia do Sul, aonde pode finalmente trabalhar com o astro Song Kang-ho (Parasita), cuja parceria saiu recompensada com a Palma de Melhor Performance Masculina na nova edição do Festival de Cannes, e novamente se reuniu com Bae Doona, com quem tinha filmado Air Doll (2009). 


Broker tem sido promovido como um road movie, o que seria uma bela reformulação temática do Koreeda mas é essencialmente mais um sub-produto desse cinema de mazelas sociais no Oriente, tendo os mencionados, Parasita e Assunto de Família como grandes representantes atuais. Desde as primeiras cenas, apresentando seus personagens sob uma noite chuvosa enquanto a jovem So-young (a cantora IU/Lee Ji Eun) carrega um bebê para deixar na portinhola da "Baby Box" de uma igreja, é difícil não associar diretamente aos filmes citados pela familiaridade visual no espaço urbano mostrado. 


Tudo neste início parece nos preparar para um soco no estômago, ao falar dessa característica cultural no abandono de recém-nascidos e adentrar um esquema de tráfico de bebês, realizado pelo simpático dono de uma lavanderia, Sang-hyeon (Kang-ho) e o amigo Dong-soo (Gang Dong-won), quando logo são descobertos por So-young, que reconsidera a decisão de abandonar o bebê, Woosung, ou ao menos planeja garantir que ele tenha um bom lar antes de se despedir, enquanto duas desconhecidas, Soo-jin (Doona) e Lee (Lee Joo-young) os seguem por razões ainda desconhecidas. Um corpo descoberto num quarto de hotel e mais figuras desconhecidas interessadas em adquirir a criança vão surgindo no decorrer, amontoando nossas suspeitas. 


Koreeda sempre tocou em feridas do desamparo social, como por exemplo em Ninguém Pode Saber (2004), que também retratava uma cruel realidade envolvendo crianças, mas com o grupo de personagens em Broker, há pouca evolução no campo afetivo ou na análise social, preferindo avançar numa trama criminal que repete o esquema visto em Assunto... sofrendo de uma nítida falta de argumentos. Há sim um investimento na imersão enérgica de momentos que pareçam um recorte honesto dessa realidade brutal entre o trio que se destina rumo a venda de Woosung, que ainda acolhem pelo caminho o adorável Hae-jin (Lim Seung-soo), que é pura energia funcionando melhor dentro desse esquema de encenação naturalista. Lee e a jovem mãe trocam confidencialidades e um breve afeto, enquanto Sang-hyeon assume a função paterna por todos.


Tendo temas tão sensíveis em volta da política e cultura sul-coreana, Koreeda não poderia ser anti-partidário e mesmo nas boas intenções há quem possa encontrar brechas para criticar a exploração das precárias condições que são impostas à So-Young. Confesso ter a vontade de querer contestar o prêmio de Kang-ho, pelo tanto que acaba sendo desprovido de um real protagonismo aqui, que some de cena na grande solução final do roteiro. Esse desfecho talvez simplifique bem o que é Broker ao todo na minha percepção: um filme incapaz de gerar de forma autêntica sentimentos, e engajar socialmente.

2022 em 222 Filmes

Não é possível singularizar o cinema, sendo um vasto campo de linguagem visual e sonora. Pode ser um refúgio, quando não queremos nos inteir...