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quinta-feira, 4 de agosto de 2022

The Righteous (2021)


Um padre em conflito com a própria fé, após um estranho o colocar em dúvida sobre a natureza divina dela. Essa era a premissa de Luz de Inverno (Nattvardsgästerna, 1963), uma das obras mais celebradas de Ingmar Bergman, que anos atrás Paul Schrader revisionou em First Reformed (2017). O filme sueco é um dos grandes exemplares a dialogar sobre o dilema da espiritualidade em oposição aos nossos sofrimentos carnais. Eis que agora surge o curioso título canadense The Righteous, com direção de Mark O'Brien (ator de Halt and Catch Fire e que pode ser visto em Blue Bayou, também do ano passado), e filmado em preto e branco que antes de conferir já me parecia ser uma grande homenagem à ele. Tendo sido bastante premiado nas edições passadas do Grimmfest e Fantasia Film Festival.

A dupla Henry Czerny e Mimi Kuzyk interpreta o casal Frederik e Ethel Mason, que acabam por passar por uma tragédia ao perder a filha, ainda criança. Frederik é um ex-padre que largou o santo posto quando acreditou ter encontrado o amor em Ethel, e agora sofrem um grande abalo na relação, ainda em processo de descobrimento sobre como lidarem com a morte de sua única cria, recebendo em casa o consolo de vizinhos e pessoas próximas. Eles vivem numa área de mata no que parece ser um pequeno vilarejo, como a civilização de aspecto inóspito no grande filme de Bergman. Uma noite surge um jovem estranho com o tornozelo machucado, que eles não esperavam ter de acolher na residência. Aaron (o próprio O'brien) se apresenta como um aventureiro azarado bastante agradável, cativando logo a afeição materna de Ethel, mas sua ida até Frederik tem um objetivo secreto que espera revelar-lhe em breve. 

Aos 38 anos, Mark O'Brien que guarda uma semelhança indissociável ao norte-americano Evan Peters, em sua estréia na direção investe em trabalhar em cima do ar de tensão e mistério que envolve seus personagens, bastante preocupado em sustentar a dinâmica entre si e os atores. Apesar da premissa, ele que vem de uma família católica confessa não ter pensado em fazer deste um relato de contestamento de fé, mas ainda é um grande elemento que move o personagem de Czerny, que interpreta tão bem em seu martírio silencioso pelo tormento mental causado por lembranças do passado. Desde a escolha da fotografia monocromática, como não pensar que esta é uma ilustração da luta entre a luz e as trevas? Visualmente é menos bem planejado que um filme de Carl Thedor Dreyer, que admite ser também uma grande referência para sua realização, mas a cinematografia de Scott McClellan ainda é eficiente. Quem Tem Medo de Virginia Woof? (1966), é outro referencial que pode facilmente vir a passar pela mente dos telespectadores pela concentração no trio. A ligação dos protagonistas com Doris (Kate Corbett), é outro ponto que permite um momento de brilho nessa interação performática. 

Com a bomba armada trazida por Aaron em forma de desafio e segredo, The Righteous se encaminha para um confronto final explosivo. E apesar de toda boa composição do diretor, ainda não é capaz de conter todas as ótimas ideias que tinha aqui, e diria que é muito por causa de ficar no meio termo em fazer disso uma luta espiritual mais aberta, algo que Bergman não tinha receio em representar. O horror vem em pequenas doses, muito como reflexo da aflição dramática em que está a família Mason, num geral é um produto estranho para o grande público digerir ou se interessar, tendo conseguido uma distribuição bastante pequena comercialmente. Mas há uma audácia interessante no que O'Brien propõe, o que para um diretor inicialmente é suficientemente marcante e faz deste um belo início para a sua carreira. E um exemplar independente chamativo.

The Righteous pode ser conferido aqui com legendas com tradução automática.

Men (2022)


Autor de 'A Praia', o inglês Alex Garland é um dos nomes de maior ascensão na indústria cinematográfica nos últimos 20 anos, dispensando apresentações desde que sua estréia na direção, Ex-Machina (2015) com duas indicações no Oscar, se tornou um dos grandes títulos referenciais na ficção-científica deste século, ao discutir a posição do homem na evolução tecnológica que possivelmente o aniquilará no futuro. Após se aventurar na Paramount com o desastroso Aniquilação (2018), e na TV com a série Devs (2020), ele retorna a parceria de sucesso com a A24 com Men.

Em Men, junto de Harper (Jessie Buckley) somos levados ao cenário bucólico de um pequeno condado britânico, quando a mulher aluga uma residência em busca da tão sonhada tranquilidade que só o campo pode oferecer. Mas o que não conseguirá estando atormentada por visões violentas envolvendo o marido, James (Paapa Essiedu), e pouco a pouco descobrindo a presença hostil que os habitantes locais (todos homens) representam. A única figura (feminina) que a oferece consolo é a de Riley (Gayle Rinkin), a amiga com quem conversa por vídeo-chamada por horas. Sua busca por paz interior está com horas marcadas para chegar ao fim quando começar a notar um caminhante nu (interpretado por Rory Kinnear, assim como todos os outros homens que virão a seguir).


 Apresentada a narrativa inicial, agora posso falar: a primeira hora de Men é uma dos mais idiotas e grosseiras que um filme poderia alcançar em termos de linguagem destes últimos anos no cinema. Desde a memória traumática com a morte que Harper possui, como um corte abrupto esfregado na cara do público para apontar o estado de luto, a criação de simbolismos numa ida a igreja, que apontam para uma mistura de cristianismo e paganismo irlandês, até a forma como quer mostrar cada homem no caminho da personagem como um possível agressor ou violentador. É estupidamente progressista por esse caminho de consciência social e de gênero, temas que viraram sinônimo da A24. Garland não é nada sutil, e isso ao menos o leva a ter um êxito mais afrente.


É assim que o mundo de Harper colide com a misoginia: o estranho pelado a segue sem motivo aparente, as forças policias não a dão ouvidos e o padre Geoffrey (Kinnear), com um toque físico avança limites sobre seu corpo durante uma conversa, além de reproduzir falas que apontam como não compreende p***a nenhuma a respeito dela, ou de ter empatia pelo seu sofrimento. O contraste da relação com a natureza plácida, imponente e que remete as formas de representações mais puras e carnais, pelo estado animalesco natural do homem aponta ao menos duas inspirações óbvias na fotografia de Rob Hardy, colaborador de sempre do diretor, o primeiro é Tarkovsky, e não seria a primeira vez desde que forçando uma linha de pensamento podemos dizer que Ex-Machina, é o Solaris (1972) do inglês, assim como Aniquilação é Stalker (1979). Bobagem verdadeira. E o dinamarquês Lars Von Trier, o popstar do cinema transgressor, como não pensar em seu Anticristo (2009)? Mas digo que essa é uma tentativa de fazer uma versão moderna de A Hora do Lobo (1967), a mais extrema aventura no horror simbólico e psicológico que Ingmar Bergman nos presenteou.

Se Men se prova ineficiente no quesito de instigar reflexões de temas que estão saturados no cenário do cinema atual, é ironicamente o caminho oposto deste tipo de conceito (o de oferecer imagens e pensamentos em segundo plano, camuflado e cheio de interpretações), que Garland tem sucesso: o confronto com o horror físico, violento e grotesco. Os 40 minutos finais são os mais aproveitáveis para os entusiastas do bizarro, quando Harper vive horas de puro terror na casa quando ocorre uma invasão. Chega a ser indescritível o que acontece nesse ponto, e o que quase retirou minha rejeição pelo filme.


Se falou muito de Rory Kinnear, mas mesmo gostando dos momentos finais, não consigo ver o ator incorporando uma força verdadeiramente ameaçadora, isso se deve muito pelos personagens pessimamente escritos, quanto pela forma como Buckley reage na pele da personagem, que me fez chegar a conclusão de que Harper mesmo confusa e melancólica, é impenetrável. A cena final que remete a dois grandes sucessos do gênero em 2019, Midsommar e Ready or Not garante um sorrisinho. Ou talvez esse seja apenas o pior papel da atriz irlandesa, que este ano pode estar melhor sendo cantora, como podem conferir aqui.

Men chega nos cinemas nacionais através da Paris Filmes em Setembro, com o subtítulo "Faces do Medo" (argh). Mas se pode ver aqui legendado.

2022 em 222 Filmes

Não é possível singularizar o cinema, sendo um vasto campo de linguagem visual e sonora. Pode ser um refúgio, quando não queremos nos inteir...