Mostrando postagens com marcador slasher. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador slasher. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de outubro de 2022

Sissy (2022)


Com uma recepção bastante modesta e positiva no SXSW (Festival South by Southwest) este ano, Sissy esteve arrancando comentários de diversos admiradores do gênero de horror, como uma bela surpresa. Descrito como um thriller psicológico slasher, e dirigido pela dupla formada por Kane Senes e a atriz, Hannah Barlow, se trata de uma produção diretamente realizada na Austrália. País conhecido por ter estradas que são o território de Mick Taylor, da franquia Wolf Creek, e já alertando, Sissy reproduz fielmente a veia cômica e sádica dos filmes do grande vilão, assim como o gore, tendo inclusive violência animal.

A narrativa acompanha Cecilia (Aisha Dee), uma influencer em mídias sociais, que diz querer promover energia positiva e também fazer seus milhares de seguidores se sentirem "especiais". Ela é atormentada por eventos de infância, que são inseridas em flashbacks durante o decorrer. A retomada de contato com a sua grande ex melhor amiga daquele período, Emma (Hannah Barlow) de forma ocasional marca o início do caos em sua vida. Ao aceitar a proposta de viajar para o campo com Emma, sua noiva, Fran (Lucy Barrett), e os amigos, Jamie (Daniel Monks), Tracey (Yerin Ha), e outro grande fantasma do passado de Cecilia, Alex (Emily De Margheriti) vemos as engrenagens de seu funcionamento se desestabilizarem, a levando por um caminho inconquentemente drástico.

Sissy é o termo pejorativo normalmente usado para ofender jovens de traços afeminados, e também era o apelido carinhoso de nossa protagonista, que na boca das meninas malvadas que a excluíam, virava uma arma para constante humilhação. O entoar das vozes ainda ecoa pela mente de Cecilia, pouco a pouco voltando a enlouquecer conforme ela volta a ser perturbada por Alex, que faz questão que ela reviva os piores momentos quando criança. Uma promessa para serem melhores amigas para sempre com Emma, também carrega peso quando as coisas ficam seriamente fodidas em Sissy. O roteiro da dupla de diretores contorna o traço sensível em volta da linha tênue do descontrole e loucura consciente, montando pouco a pouco um quebra-cabeças que esclarece as ações da mulher, e alerta de um perigo latente, prestes a ser estourado. 

Sissy é como uma paródia que procura tirar sarro da atual geração, considerada vitimista, com personagens e humor cartunescos. A sobriedade de tom desaba conforme a protagonista também deixa de estar sã, com uma descida violenta pela loucura, revela como o desespero por aprovação, e problemas mentais reprimidos podem criar novos tipos de monstros, com uma sagacidade para esconder o lado tóxico e conservar suas boas imagens. Se encerrando como um exemplar sangrento, reproduzindo a estrutura batida do gênero slasher. Reserva momentos de insanidade e também procura exibir bastante carnificina na tela, mas nem todo o texto e a boa proposta são capazes de garantir uma ótima execução. Para aqueles que não apreciam comédias obscuras, com twists absurdamente perversos, Sissy não é um exemplar dos mais recomendáveis, quando muitas das sacadas podem ser vistas com maus olhos, ou impaciência pela previsibilidade dos eventos.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Morte, Morte, Morte (2022)

Após o sucesso repentino de X, a A24 retorna com um novo exemplar que parece seguir a cartilha slasher. Morte, Morte, Morte (Bodies Bodies Bodies) surgiu de forma criativa durante o ano passado como um projeto realizado sob as limitações da pandemia, reunindo um elenco pequeno de estrelas em ascensão em um único cenário. Com a atriz holandesa, Halina Reijn (Instinto, 2019) assumindo pela segunda vez em sua carreira o posto de direção. 

Começamos por testemunhar uma pontinha de insegurança sendo plantada na relação entre as jovens Sophie (Amandla Stenberg), e Bee (Maria Bakalova), nos minutos iniciais, antes de seguirem a estrada para uma reunião com os velhos amigos de Sophie. O resto do time de atores surge na tela sendo apresentados de forma bastante simbólica, em posições de cadáveres prestes a submergerem a água da piscina, da residência que pertence a família de David (Pete Davidson). O clima de ânimo parece propício para que Bee possa se integrar e se conectar com o grupo, mas não demora para que farpas venham à tona, por conta do passado de sua namorada. Na residência temos mais quatro pessoas: Alice (Rachel Sennott), com o namorado mais velho e hipster, Greg (Lee Pace), a namorada do anfitrião, Emma (Chase Sui Wonders), e Jordan (Myha'la Herrold). E antes do próximo amanhecer terão enfrentado a morte, ao iniciar a brincadeira que dá nome ao título, uma versão diferenciada dos clássicos jogos de detetive, enquanto uma forte tempestade se aproxima, que deixará o casarão escuro por toda a noite.

Com uma ação demarcada num período de 24 horas, tudo depende da interação entre o elenco. Reijn triunfa na forma como pretende aproveitá-los, sendo consistente em discurso, ainda assim o resultado é menos afiado do que se propunha inicialmente. A diretora havia anteriormente estabelecido uma visão firme e promissora em seu filme de estréia, que acabou sendo o representante da Holanda no Oscar 2020, e como atriz teve passagens por sets comandados por grandes diretores como Paul Verhoeven e Alex van Warmerdam. Sua experiência é nítida, e é o que lhe permite que não caia facilmente na armadilha de sobrecarregar sua narrativa com textos mega expositivos, personagens de arquétipos superficiais e irritantes, que costumam ser metralhadoras de referências à cultura pop, seguindo à risca o termo "white people problems", mesmo que esteja na intenção satirizar e causar instabilidade na confortável posição de alto status social em que se encontram presentes os personagens aqui, representantes da geração millenial sexualmente fluída.

O roteiro da dramaturga, Sarah DeLappe, que é baseado numa história criada por Kristen Roupenian, é eficaz em contornar a discussão sobre masculinidade tóxica, planejando sacadas espertas que esperam por serem reveladas até a cena final. A tensão é instalada gradualmente, com atos de violência sendo cometidos no decorrer dentro da residência mal iluminada, com um bom trabalho de direção de arte e fotografia, mas não a ponto de aproveitar muito do potencial de criar confusão e atingir níveis de insanidade ainda maiores. E se tudo não vai tão a fundo na loucura, o texto sabe defender o subtexto de cada personagem, que atravessa a superfície em momentos pontuais de tensão, quando o que está em jogo é a confiança entre eles. Nesse ambiente é divertido ver como pretende abalar a dinâmica entre as jovens: enquanto o ódio entre os homens é definido desde os primeiros instantes, as intrigas femininas precisam serem reviradas com pontas de faca, quase num sentido literal, para virem à tona. Maria Bakalova, Amandla Stenberg e Myha'la Herrold formam a combinação mais poderosa em cena. É uma dinâmica funcional, e após os créditos podemos ver como foi uma experiência divertida para os envolvidos na produção, mas que pode está fadado a ser um produto de efeito passageiro e momentâneo, não deixando maior impacto quando tudo se resume a um ato de estupidez. Morte, Morte, Morte está mais próximo da identidade de whodunit do que slasher, só para esclarecer como o marketing tem sido vendido. E como incursão por esse gênero, mesmo que garanta altas risadas se consumido desprentensiosamente, é inferior se comparado a outros feitos anteriores nele. Não é o melhor investimento de uma produtora como a A24 este ano, mas ainda pode ser aproveitável para a temporada de Halloween, que ainda espera por grandes títulos aparecerem.

Bodies Bodies Bodies pode ser visto legendado aqui.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

You Won't Be Alone (2022) e X (2022): A velhice e as tradições de velho mundo como o verdadeiro terror


Dois títulos do horror recentes que tem causado burburinho me chamaram atenção por uma certa similaridade na visão em elucidar um mesmo tipo de horror, ao compartilhar o olhar de velhas mulheres sobre o mundo e o reflexo da jornada por ele nelas mesmas.


Primeiro o exibido no Festival de Sundance, dirigido pelo macedônio naturalizado na Áustrália, Goran Stolevski, em You Won't Be Alone tudo se tem início com a chegada de Maria (Anamaria Marinca), uma bruxa de corpo deformado por queimaduras na forma de um gato no vilarejo onde estão Yoana (Kamka Tocinovski) e sua bebê Nevena. Para poupar que a figura milenar leve a criança, a mulher faz um acordo com ela: a garota se tornará sua serva mas apenas quando completar 16 anos. O que é aceito, mas não sem antes de deixar a marca da maldição no bebê cortando sua língua.
 

Nevena (Sara Klimoska) cresce e conforme o prometido, Maria a tira da caverna onde sua mãe havia a escondido, por medo da fúria que o estigma poderia desencadear dos aldeões, já que a criança desenvolveu garras e perdeu a fala. Ao seu lado, a bruxa tenta repassar seus conhecimentos, mas ao não saber como lidar ao encarar a morte com os próprios olhos, ela se rebela contra a anciã que a expulsa de sua companhia.


Ela se vê forçada a usar suas habilidades após um encontro acidental com a camponesa, Bosilka (Noomi Rapace). E para esclarecer, as bruxas concebidas por Stolevski são como metamorfos, que para completarem a troca de pele é preciso ter matado o ser vivo desejado.


A garota se torna uma testemunha da humanidade, e ao contrário de Maria, após muito sofrimento ela encontra uma forma de viver em harmonia com si mesma e sua natureza, desejando permanecer no corpo de Biliana (Alice Englert). O que gerará um confronto entre as duas, quando se tornará claro que o maior tormento da bruxa é que ela nunca alcançou algo parecido para si mesma, estando amargurada aceitou sua condição como criatura asquerosa como forma de ir contra a imagem dos seres humanos que a maltrataram. Suas queimaduras horrendas são um lembrete constante disso. Mesmo trocando de corpo, continua estando a mercê das limitações de sua forma original sob a pele nova. Sendo ainda impossível se combater as consequências da velhice: o cansaço físico e mental adquiridos até ali. E claro, a solidão que pesa nas costas e a impotência sobre a própria existência.


Nevena é jovem, se rebelou e procurou experimentar o melhor que a natureza humana poderia oferecer. E embora não haja um discurso explícito de gênero, o árduo trabalho que a vida do campo reserva, especialmente para as mulheres que são constantemente exploradas por seus maridos são um exemplo claro de um longo ciclo que se repete para o sexo feminino. Somente no corpo masculino de Boris (o português Carloto Cotta), que é possível para ela experimentar o sexo sem dor e prazeroso. A sequência de sua descoberta do orgasmo e logo após o encontro com Biliana no rio são os momentos mais potentes criados entre diretor e elenco. É possível também notar grande influência das lentes do americano Terence Malick, ao investigar essa relação metafísica, e mostrar a importância que a conexão do mundo material e espiritual tem para os homens.

X com selo da A24 foi exibido no Festival SXSW, tendo direção do norte-americano Ti West (A Casa do Demônio e O Sacramento) se apresenta como um representante moderno do Grindhouse, que teve outro significado mas é comumente usado hoje para reverenciar o projeto experimental de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez nos anos 2000, quando procuraram emular o máximo das produções setentistas com violência, sexo e outras tosqueiras que só podiam ser vistas no cinema B.


A abertura com um arquivo policial nos apresenta o cenário de uma tragédia numa fazenda em uma região interiorana do Texas em 1979. Então voltamos 24 horas antes para conhecer a trupe de profissionais de sexo, formada pelas estrelas Bobby-Lynne (Brittany Snow) e Jackson (o rapper Kid Cudi), a co-estrela Maxine (a neta da Maria Gladys, Mia Goth), o produtor Wayne (Martin Henderson), o aspirante a diretor RJ (Owen Campbell) e sua namorada e assistente, Lorraine (Jenna Ortega). Na estrada uma imagem já nos pega de surpresa quando vemos uma vaca estraçalhada por um caminhão, como uma pequena demonstração do show de horror e carnificina que acontecerá até o fim daquele dia.


Tudo soa disperso na primeira hora para um filme vendido como uma mistura de O Massacre da Serra Elétrica (1974) e Boogie Nights - Prazer Sem Limites (1997), enquanto os personagens conhecem o local alugado pelo pouco amistoso Howard (Stephen Ure), filmam cenas pornô e ouvem pregações de fanáticos religiosos entoando nos meios de comunicação. Mas como prova da maestria de condução de West, até mesmo o teor "white trash" vai se dissipando em meios aos estereótipos esperados de um slasher convencional, fazendo jus ao que representam da contra-cultura da época como idealistas que viraram as costas para os bons costumes que os aprisionavam em troca de liberdade, enquanto Maxine timidamente assume o controle da narrativa.


É ela quem avista um vulto distante na residência do velho anfitrião, que descobre ser Pearl, a esposa com aparente demência causada pela idade, que começa a ter uma fixação pela beleza da jovem. Quando tudo vai se esclarendo é formado um paralelo enquanto os personagens tocam "Landslide" do Fleetwood Mac, quando a dualidade entre Maxine e Pearl começa a ser explorada em quadros lado a lado, que culmina num momento arrebatador quando a senhora desnuda deita ao lado da imagem que a conforta, a da garota. Pele jovem e nova lado a lado numa mesma cama. E saber sobre o passado de Pearl, que foi impedida de ter a vida que esperava ao lado do marido, só aprofunda mais essa perspectiva. Há outra informação importante sobre Pearl, mas que é melhor não deixá-la escrita.
 

Tal como Maria em You Won't Be Alone, nada pode ser feito para que Pearl possa se livrar da pele enrugada ou deixar de enxergá-la sem relembrar que um dia, em frente aquele mesmo espelho já houve uma mulher pronta para outro destino, antes de precisar pegar um garfo de feno para punir por inveja combinada a verve do dever religioso aqueles que podem desfrutar de futuros melhores ou mais esperançosos, sem mais medo de serem quem são. Maxine é quem vemos partindo sem ter medo de pisar no acelerador e deixar tudo para trás para enfim buscar ter a vida que merece.

You Won't Be Alone ainda não tem previsão para ser lançado no Brasil mas pode ser conferido aqui legendado. X chega em 28 de Julho nos cinemas do Brasil, e por enquanto também pode ser conferido legendado aqui. Os créditos para os arquivos vão todos para o Quarentena Cinéfila.

2022 em 222 Filmes

Não é possível singularizar o cinema, sendo um vasto campo de linguagem visual e sonora. Pode ser um refúgio, quando não queremos nos inteir...