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quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Pinóquio por Guillermo Del Toro (2022)


A véspera de Natal se aproxima, e não poderia deixar de falar do lançamento mais encantador, por oferecer coração para esta época tão estimada, e ao mesmo tempo tão "cristã" como... sim, Pinóquio por Guillermo Del Toro. O personagem de origem italiana, datada no século XIX, no livro de Carlo Collodi, tem ganhado diversas novas adaptações para as telas nos últimos três anos, como o live-action dirigido por Roberto Benigni, e há uns meses atrás, o encomendado pela Disney, dirigido por Robert Zemeckis; embora não as tenha conferido, a produção em stop-motion da Netflix em parceria com o diretor mexicano, poderia ser afirmada como a versão definitiva da história do menino de madeira.

Antes de mais nada, é preciso fazer a pergunta: por que Del Toro estaria tão interessado numa história para crianças? Ora, a resposta é a mais simples, aquela encontrada nos elementos mais explícitos dos seus grandes sucessos: o fascínio pelo mundo fantástico do imaginário infantil, e outra interligação importante, que deixarei no final do texto. Sempre houve muita paixão transmitida nos mundos mágicos que concebeu, tal como nos olhos brilhantes de uma criança sonhadora, e aqui adianto a resposta para tamanho sucesso do seu Pinóquio: ao contrário de máquinas multimilionárias de panfletagem de falsos sonhos, aventuras e lucros com brinquedos, não há rodeios na forma que Del Toro se dirige aos pequenos, apresentando uma jornada honestamente tão doce, como brutal. Contextualizado na Itália antes, e durante a Segunda Guerra Mundial, a tragédia demonstra ter os pés fincados na vida do mestre carpinteiro, Geppetto (David Bradley), quando um bombardeio incidental na igreja do povoado onde vive, vitimiza seu tão amado filho, Carlo (Gregory Mann).

A dor no ritual de luto, tão inconformado ao confrontar uma grande árvore na tempestade, o conecta na mesma noite com o clássico narrador, o Grilo Falante Sebastian (Ewan McGregor), e os espíritos da floresta, que o concedem o clamor de poder ter o filho de volta. Ao criar o boneco de madeira, a Fada Azul (Tilda Swinton) lhe dá o sopro de vida, enquanto o Grilo serve como testemunha de tamanho milagre mágico. Pinóquio (também dublado por Mann), é um menino de natureza impulsiva, pelo anseio de compreender o mundo ao redor, e receber o amor do pai. A tremenda admiração por ver uma criação de madeira falar, e andar como um ser humano, logo gera uma reação perplexa na comunidade do povoado, com fundamentos religiosos, e de preocupação pelas autoridades armadas. O que atrai a atenção do falsário apresentador de circo, Raposa (Christoph Waltz), e o líder oficial facista, Podestà (Ron Perlman), que o colocarão em apuros, o levando de encontro com a Morte (Swinton novamente).

A relação paternal com o carpinteiro segue sendo o grande vínculo narrativo, como uma bela lição sobre reaprender a amar, e dois arcos aumentam a experiência da já conhecida aventura de Pinóquio: A amizade conquistada de Candlewick (Finn Wolfhard), aspirante a fascista; e o laço com o macaco do explorador, também vítima da vigarice do dono, Spazzatura (Cate Blanchett). Assim como se inseriu dentro de um orfanato no cenário da Guerra Civil Espanhola em A Espinha do Diabo (2001), e na Segunda Guerra Mundial em Labirinto do Fauno (2006), a crítica ao fascismo de Del Toro para as forças italianas garante momentos nada ingênuos, onde o perigo da encenação com armas, se dirige diretamente a estratégia da propaganda militar e o dever de cumprimento nacionalista, responsáveis por levar milhões de jovens para uma marcha da morte.

Del Toro não estaria reinventando, mas sim, reaproveitando todos os indícios que estavam bastante nítidos na criação literária de Collodi, e que agora são mais que perceptíveis para mim na fase adulta, que apontam a fonte de crença bíblica. A começar por Geppetto, nome que seria o diminutivo de Giuseppe, José em italiano, e a extraordinária transposição na descrição visual de anjos na Fada Azul e a Morte (essa descoberta foi apontada pelo meu único leitor, Felipe). E também como não enxergar Pinóquio, em paralelo como o filho do divino, ao ser como um objeto de expiação para as apresentações do circo, que arrancaram o direito sobre sua própria imagem? A força emocional do filme no desfecho reside numa mensagem sobre o efeito da passagem do tempo, a finitude da vida, e aí está o reencontro do diretor 29 anos depois, com seu tema mais caro: A eternidade buscada pelo vendedor de antiguidades em Cronos, seu filme de estréia. Pinóquio é o grande retorno ao tema de origem que lançou o tão adorado diretor mexicano, ao dar a tão famosa fábula, a mais rica leitura mítica, unindo o confronto da religião com o horror da Guerra, e a contraposição da maldade humana com os grandes princípios adquiridos no amadurecimento dos personagens, no aconchego do amor nos mais próximos, enquanto esta vida durar.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Atena (2022)


Sem texto hoje, apenas passem longe desse filme caso tenham muito respeito por La Haine (1995), e sensatamente detestem Crash (2004).

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Passei Por Aqui (2022)


A nova produção original da Netflix, Passei Por Aqui/I Came By com direção do britânico-iraniano Babak Anvari (Sob a Sombra, 2016), cujos dois filmes anteriores também estão disponíveis na plataforma de streaming, parte de argumentos bem previsíveis para tomar forma própria. O atual cenário da imigração na Inglaterra, que deixa diversos estrangeiros desesperados por amparo, e sob uma crescente marginalização, assim como o campo político e social inglês são o pano de fundo onde o filme ocorre. Nele acompanhamos Toby Nealey (George MacKay), filho da psicóloga Lizzie (Kelly Macdonald), um jovem que ainda não encontrou direção na vida, muito por conta da atitude irreverente e inconformado com a sociedade, tendo como segredo sua identidade como o pichador responsável pela marca "I Came By", que ganhou notoriedade por se tornar o terror dos ricaços preocupados com a defesa da propriedade privada.


O amigo (de etnia negra) de longa data, Jay (Percelle Ascott) está saindo do esquema de pichação ilegal para tentar cuidar da namorada grávida, a imigrante Naz (Varada Sethum), logo quando Toby encontra o local ideal para a próxima, na residência do ex-juiz, Hector Blake (Hugh Boneville) onde Jay esteve trabalhando. Agindo sozinho, a invasão ocorre mas não sai como esperado quando encontra fotos e o local onde o homem esconde um segredo. O resto o telespectador pode prever. Ou não.


O dimensionamento dos conflitos entre os personagens é que gera o grande diferencial aqui, saindo do cerne comum onde costuma estarem histórias do tipo, expandindo a premissa para atingir a mensagem que pretende alcançar. Há espaço para cada um assumir ou estar em foco da narrativa, em determinado ponto temos Liz no comando, como uma mãe determinada a desvendar o mistério por trás do desconhecido. Blake está sempre atento com o sistema de segurança, faz saídas mas deixa a casa aberta, e até mesmo chaves como uma grande piada brincando com o telespectador que acompanhará sem poder fazer nada suas próximas ações. Partindo da sala de atendimento da psicóloga, onde Faisal (Antonio Aakeel) desempenha notável função, até o drama de Jay com Naz, o roteiro escrito por Anvari e Namsi Khan é bem amarrado, e esforçado em criar e sustentar subtextos e ligações. A cena onde entrega as informações necessárias para entender as motivações do vilão é um momento a se destacar pela forma como planeja uma dinâmica, onde testemunhamos melhor sua forma de cometer crimes.


Babak Anvari joga com as próprias regras em Passei Por Aqui. É uma revisão estruturalista da cartilha do home invasion como Homem nas Trevas (2016), e até poderia ser visto como um Corra (2017), à sua própria maneira, que segue por direções que podem não ser muito atraentes para os amantes do gênero, mas que tem muito a oferecer dentro do desenvolvimento pelo olhar complacente às questões sociais em que estão inseridos seus personagens, e levemente dilacerante quando encara o destino dos mesmos. Mesmo com o ditadismo e como não os livra de estarem em situações que põem em dúvida a racionalidade. Até mesmo essa sequência de eventos absurdos carrega um tom divertido por saber como demonstrar para o telespectador que não está ileso, e à mercê do sistema capitalista beneficente aos mais abastados. Da classe média confortável, às forças policiais, até aos imigrantes lutando por estadia, ninguém pode pôr um fim às ações monstruosas de Hector Blake, que se aproveita da máscara da alta sociedade para poder sair impune e satisfazer seu senso torpe e sádico por vingança. Kelly Macdonald sob uma face aflita e um George MacKay exposto de forma tão vulnerável é marcante. É preciso se mencionar o tom de humor distorcido ao fazer uma menção a Capitão Fantástico (2016), onde o ator inglês tão bem ficou conhecido, que garante uma risada nada feliz. O jovem e também escritor, Percelle Ascott, nascido no Zimbábue tem um bom desempenho, que ao finalmente tomar o centro de ação garante um desfecho satisfatório.

Anvari opta por encerrar o filme ao som da famosa balada do Tears for Fears, Everybody Wants to Rule the World que não por acaso, de relevância lírica com alusão à corrupção humana e política, tem a voz de Roland Orzabal, de descendência espanhola e argentina, além da banda ter sido grande representante nos anos 80 do espírito rebelde e revolucionário que também acompanha alguns dos personagens, e diria que encerra bem todo o intuito em refletir através dessa experiência do cinema de gênero a nossa força enfraquecedora diante do sistema burocrático e injusto que dita nossas vidas.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

365 Dias: Hoje (2022)


Em 2020, 365 Dias chegou à Netflix e causou um grande alvoroço em torno de seu conteúdo erótico. Naquele período já havia o conferido meses antes de entrar na plataforma, seguindo o ânimo de algumas amigas por conta do erotismo presente no filme e a popularidade que a trilogia escrita por Blanka Lipińska estava tendo. Na minha perspectiva até então era regular seguindo a proposta de excitar o público feminino, mesmo que grotescamente realizado. Apenas com a polêmica entre o público comecei a ampliar minha perspectiva.


Ao ser lançado no streaming, 365 Dias se tornaria muito mais que apenas um filme erótico e inconscientemente uma peça no meio de conflitos de pensamentos políticos, e também de crítica ao mundo literário erótico que estimula e fomenta comportamentos grosseiros e ultrapassados, onde ironicamente autoras mulheres tem predominância. Enquanto a produção polonesa ganhava os olhos do mundo exibindo uma paixão lasciva duvidosa entre uma mulher sequestrada e um mafioso, chamando atenção para o tratamento retrógrado da personagem feminina, a Polônia recuava no progresso em relação a violência contra a mulher, ao dar início a retirada da Convenção de Istambul, existente desde 2011. Mais tarde naquele ano devido as pressões internacionais o país passaria a reformular suas leis na área, mesmo com a repressão de um dos partidos da ultra-direita, não deixando de amparar as vítimas de violência doméstica.


Com o lançamento da sequência, realizada agora pela Netflix a discussão retorna, afinal, o prazer dos telespectadores ao verem uma mulher ser objetificada e vítima de abusos, é condenável? É necessário correção quanto ao imaginário popularizado sexual?


365 Dias: Hoje (365 Days: This Day) não dá continuidade certa ao eventos que encerraram o primeiro longa como esperado, com Laura (Anna-Maria Sieklucka) em sugestão de perigo a caminho do casamento ao entrar em um túnel. O ocorrido é mencionado apenas para levantar um trauma na personagem, mas não há base dramática o suficiente para funcionar, e não só isso, a sequência parece mais desconexa do que nunca, talvez por conta do material do livro, por problemas de gravações na pandemia, ou para se desvencilhar das discussões polêmicas que questionam o posicionamento de Laura e a intenção dos realizadores, Barbara Bialowas e Tomasz Mandes.

 
Recapitulando, o galã a quem é atribuído todo o sucesso, Michele Morrone, interpreta o mafioso Massimo, que ao ter presenciado a morte do pai viu em Laura um vislumbre de esperança, se tornando obcecado em obter a mulher. Ele a mantém sob seu controle embora a diga que ela tenha a opção de partir. Enquanto Laura estava saindo de um relacionamento conturbado, o texto questionava vagamente sua autonomia para não repetir erros do passado e ser independente das vontades do parceiro.


O que não é o que vemos, já que a relação entre os dois é toda confusa, no jogo sexual Massimo não poderia ser visto de forma mais misógina, onde Laura está sempre de canto, á sua disposição para lhe dar prazer. Essa é a oportunidade para mencionar a trilogia 50 Tons de Cinza, que compartilha do paralelo de falhar com sua protagonista numa suposta jornada de autodescoberta interior através do sexo e dominação em sua adaptação nos cinemas.

O casamento aconteceu e na primeira meia hora tudo o que temos são sequências aleatórias de sexo pela residência do mafioso, seja entre o casal ou entre a amiga, Olga (Magdalena Lamparska) e Domenico (Otar Saralidze), e já não temos certeza se estamos na Itália ou Polônia... aliás, todo o background sobre o conflito étnico da Máfia é perdido, mesmo quando retomam a trama criminal nos momentos finais para outro desfecho de tom trágico. Uma cena que ilustra bem a fraqueza quanto a criação de um personagem consistente sem depender de estereótipos, é a de Massimo preocupado com seus sapatos novos sujos com o sangue de um homem que ele acaba de executar. Algo que se fosse saído do universo de Martin Scorsese ou de David Chase, teria um impacto ou significância maior ao exibir a vilaneza ordinário de um de seus personagens, mas em 365 Dias não existe um suporte em torno da persona cruel de Massimo, sendo uma demonstração gratuita de violência.


A música é ininterrupta, e não há uma composição original, o pior que são canções que aliado ao formato filmado me fazem retornar a primeira impressão e mais negativa: é como uma sessão pornográfica financiada pela Avon, ou qualquer outra marca de moda para exibir modelos bonitos. Quem é introduzido no novo capítulo é o espanhol Nacho (Simone Susinna), sua primeira aparição parece algo possível somente em um sonho erótico, como um jardineiro tatuado preocupado com Laura, não demora para ela estar seduzida pelo cavalheiro que a leva para uma ilha. É aí que temos uma dualidade onde continuam a perpetuar clichês de figuras masculinas na escrita erótica: Nacho surge como um salvador, um homem zeloso com a família e o bem-estar dos próximos, e em sua cama, Laura não está mais a disposição de alguém para dar prazer, mas sim de alguém que a queira satisfazer. E assim está formado um previsível triângulo amoroso. As condições de vida do personagem no entanto, são luxuosas demais para se tratar de um simples jardineiro, e aí começam a surgir twists novelescos.


Este também é o ano em que ocorreu o retorno de Adrian Lyne aos cinemas com Águas Profundas no Hulu e Amazon Prime, o cineasta famoso por filmes como Nove e Meia Semanas de Amor (1986), Atração Fatal (1987), Proposta Indecente (1993) e Lolita (1997), cujo cinema também sempre foi alvo de críticas pelo malegaze e trato de suas personagens femininas. Seu novo filme também provou não ser mais capaz de sustentar seus antigos padrões, e ainda mais ineficaz de levantar o pau de alguém, mesmo com Ana de Armas com os seios fora.

 
365 Dias: Hoje tem umas cenas que são despropositalmente divertidas, o primeiro diálogo é sobre estar sem calcinha por exemplo, e mais tarde num campo de golfe Laura mostra a Massimo qual buraco acertar, a cena foi o motivo de querer fazer um texto sobre ele. Há algo aí na galhofa que se seguisse esse tom alheio da realidade e absurdo, até seria aproveitável, mas não, não há o que defender dele da forma como seguiu. Nem mesmo uma discussão sobre os aspectos políticos e da natureza errada dá pra continuar depois dele.

2022 em 222 Filmes

Não é possível singularizar o cinema, sendo um vasto campo de linguagem visual e sonora. Pode ser um refúgio, quando não queremos nos inteir...