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domingo, 2 de outubro de 2022

Slash/Back (2022)


O medo do desconhecido, por formas de vida de outros mundos, sempre foi um dos principais motores de criação do gênero de horror e ficção científica. Lovecraft que o diga. O Enigma de Outro Mundo (1982), que este ano completa quatro décadas desde o lançamento, ainda é o grande representante que lida com essa abordagem, por nos colocar diante de um horror mutante e grotesco. A produção canadense, Slash/Back que conta com a direção de Nyla Innuksuk (a co-criadora da Guarda de Neve nas HQs da Marvel), homenageia a criação de John Carpenter sob o olhar do cinema independente nativo atual.


Filmado na Ilha de Baffin, acompanha a chegada de um mal desconhecido e voraz que se inicia no círculo ártico, até se aproximar do vilarejo de Pangnirtung, uma região isolada do resto do mundo. Um quarteto de meninas, lideradas por Maika (Tasiana Shirley) e Uki (Nalajoss Ellsworth), é que fazem a descoberta, após o contato com um urso polar de comportamento atípico. Sofrendo com o desatento dos pais, que preferem ficarem bêbados a dar atenção aos filhos, assim como outras dificuldades e responsabilidade familiares que recaem nas costas dos jovens do vilarejo, o roteiro escrito por Ryan Cavan busca discutir dentro desse cenário como os menores são os mais suscetíveis a confrontar males, estando sob risco de marginalização. O tom é desesperanço, até a ameaça de outro mundo acabar promovendo a união entre elas. Relembrando fórmulas de sucesso como a de Stranger Things, o trabalho com o elenco adolescente cativa, assim como o empenho em dar forma ao horror com efeitos práticos e maquiagem.


A nojeira gráfica não é aliviada por lidar com um elenco tão juvenil, oferecendo transformações de body horror bastante desconcertantes, embora não haja tantos confrontos violentos. A ameaça mutante quando possui o corpo humana é tão desajeitada que recorda os trejeitos de Leatherface em O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno (1995). Há subtextos políticos que não ganham melhor tratamento como poderia, como a tentativa de abordar a violência e discriminação policial em comunidades nativas. Os adultos, assim como os garotos estão distantes do grupo protagonista, que primeiro resolvem a oposição existente em seu próprio grupo, para depois sozinhas tentar salvar o mundo, e conseguir se tornar heroínas por um dia. Semelhante ao que ocorre em Predador: A Caçada, é bastante alinhado em oferecer uma boa representação nativa e de gênero, com elementos de coming of age, com jovens ainda no processo de formação de identidade, desbravando o mundo. Sendo uma aventura de gênero efetiva, mesmo que não se solidifique como um grande exemplar a lidar com os conceitos de horror alienígena.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Men (2022)


Autor de 'A Praia', o inglês Alex Garland é um dos nomes de maior ascensão na indústria cinematográfica nos últimos 20 anos, dispensando apresentações desde que sua estréia na direção, Ex-Machina (2015) com duas indicações no Oscar, se tornou um dos grandes títulos referenciais na ficção-científica deste século, ao discutir a posição do homem na evolução tecnológica que possivelmente o aniquilará no futuro. Após se aventurar na Paramount com o desastroso Aniquilação (2018), e na TV com a série Devs (2020), ele retorna a parceria de sucesso com a A24 com Men.

Em Men, junto de Harper (Jessie Buckley) somos levados ao cenário bucólico de um pequeno condado britânico, quando a mulher aluga uma residência em busca da tão sonhada tranquilidade que só o campo pode oferecer. Mas o que não conseguirá estando atormentada por visões violentas envolvendo o marido, James (Paapa Essiedu), e pouco a pouco descobrindo a presença hostil que os habitantes locais (todos homens) representam. A única figura (feminina) que a oferece consolo é a de Riley (Gayle Rinkin), a amiga com quem conversa por vídeo-chamada por horas. Sua busca por paz interior está com horas marcadas para chegar ao fim quando começar a notar um caminhante nu (interpretado por Rory Kinnear, assim como todos os outros homens que virão a seguir).


 Apresentada a narrativa inicial, agora posso falar: a primeira hora de Men é uma dos mais idiotas e grosseiras que um filme poderia alcançar em termos de linguagem destes últimos anos no cinema. Desde a memória traumática com a morte que Harper possui, como um corte abrupto esfregado na cara do público para apontar o estado de luto, a criação de simbolismos numa ida a igreja, que apontam para uma mistura de cristianismo e paganismo irlandês, até a forma como quer mostrar cada homem no caminho da personagem como um possível agressor ou violentador. É estupidamente progressista por esse caminho de consciência social e de gênero, temas que viraram sinônimo da A24. Garland não é nada sutil, e isso ao menos o leva a ter um êxito mais afrente.


É assim que o mundo de Harper colide com a misoginia: o estranho pelado a segue sem motivo aparente, as forças policias não a dão ouvidos e o padre Geoffrey (Kinnear), com um toque físico avança limites sobre seu corpo durante uma conversa, além de reproduzir falas que apontam como não compreende p***a nenhuma a respeito dela, ou de ter empatia pelo seu sofrimento. O contraste da relação com a natureza plácida, imponente e que remete as formas de representações mais puras e carnais, pelo estado animalesco natural do homem aponta ao menos duas inspirações óbvias na fotografia de Rob Hardy, colaborador de sempre do diretor, o primeiro é Tarkovsky, e não seria a primeira vez desde que forçando uma linha de pensamento podemos dizer que Ex-Machina, é o Solaris (1972) do inglês, assim como Aniquilação é Stalker (1979). Bobagem verdadeira. E o dinamarquês Lars Von Trier, o popstar do cinema transgressor, como não pensar em seu Anticristo (2009)? Mas digo que essa é uma tentativa de fazer uma versão moderna de A Hora do Lobo (1967), a mais extrema aventura no horror simbólico e psicológico que Ingmar Bergman nos presenteou.

Se Men se prova ineficiente no quesito de instigar reflexões de temas que estão saturados no cenário do cinema atual, é ironicamente o caminho oposto deste tipo de conceito (o de oferecer imagens e pensamentos em segundo plano, camuflado e cheio de interpretações), que Garland tem sucesso: o confronto com o horror físico, violento e grotesco. Os 40 minutos finais são os mais aproveitáveis para os entusiastas do bizarro, quando Harper vive horas de puro terror na casa quando ocorre uma invasão. Chega a ser indescritível o que acontece nesse ponto, e o que quase retirou minha rejeição pelo filme.


Se falou muito de Rory Kinnear, mas mesmo gostando dos momentos finais, não consigo ver o ator incorporando uma força verdadeiramente ameaçadora, isso se deve muito pelos personagens pessimamente escritos, quanto pela forma como Buckley reage na pele da personagem, que me fez chegar a conclusão de que Harper mesmo confusa e melancólica, é impenetrável. A cena final que remete a dois grandes sucessos do gênero em 2019, Midsommar e Ready or Not garante um sorrisinho. Ou talvez esse seja apenas o pior papel da atriz irlandesa, que este ano pode estar melhor sendo cantora, como podem conferir aqui.

Men chega nos cinemas nacionais através da Paris Filmes em Setembro, com o subtítulo "Faces do Medo" (argh). Mas se pode ver aqui legendado.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Trailer: Crimes of the Future (2022)

Divulgado pela NEON o trailer redband de Crimes of the Future, o retorno de David Cronenberg que compete este ano à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Sua última excursão ao cinema havia sido em 2014 com o estranho drama sobre Hollywood, "Mapa Para as Estrelas".

Não é necessário dar muitos detalhes, mas sabemos que a trama ambientada num futuro (talvez não tão) distante, acompanha Saul Tenser, um performer artístico interpretado por Viggo Mortensen, que ao lado de sua parceira, Caprice (a musa Léa Seydoux) se apresenta exibindo suas modificações corporais. Kristen Stewart adentra esse cenário como Timlim, alguém muito interessada em ver mais do trabalho do artista.


"Crimes of the Future é uma meditação sobre a evolução humana… as maneiras pelas quais tivemos que assumir o controle do processo porque criamos ambientes tão poderosos que não existiam anteriormente”, assim como também "[É) uma evolução das coisas que eu fiz antes" e "Essa é uma continuidade do meu entendimento da tecnologia ligada ao corpo humano", afirmou Cronenberg.


Curiosamente, Crimes of the Future também foi o título de seu segundo longa em 1970, que imaginava o futuro de 1997 como um mundo sem mulheres após um erro no desenvolvimento da indústria cosmética que ocasionou a criação de uma praga viral. No entanto, não parece haver ligações entre eles.


A capacidade do diretor reverenciado por A Mosca (1986) e Crash - Estranhos Prazeres (1996) dispensa comentários e o filme já classificado como Rated R comercialmente, certamente vem com a promessa de provocar o público visualmente com muita violência, erotismo e bizarrices, voltando a arrasar o Festival de Cannes após a vitória histórica do body horror feminino, Titane no ano passado.

As filmagens ocorreram na Grécia no fim do ano passado e no elenco também estão Scott Speedman, Welket Bungué, Don McKellar, Lihi Kornowski, Tanaya Beatty, Nadia Litz, e Yorgos Pirpassopoulos, Yorgos Karamihos, Denise Capezza e Jason Bitter. Muitas caras novas no cinema do canadense esquisitão, assim como também conta com a direção de fotografia do desconhecido (para mim) Douglas Koch, mas repete a parceira de sucesso com o compositor Howard Shore.

Ainda sem previsão no Brasil, Crimes of the Future deve ter sua primeira exibição no dia 23 de Maio em Cannes, e a partir de 03 de Junho chega nos cinemas de Los Angeles. Mas não teremos que esperar tanto desde que supostamente o Blu-ray deve ser lançado em 09 de Agosto, o que deve indicar o lançamento em VOD (Video on Demand) em algum momento de Julho. E darei um jeito de comentar mais de Cronenberg por aqui até lá.

2022 em 222 Filmes

Não é possível singularizar o cinema, sendo um vasto campo de linguagem visual e sonora. Pode ser um refúgio, quando não queremos nos inteir...