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quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Gone in the Night (2022)

Winona Ryder dispensa apresentações como um dos grandes nomes do cinema estadunidense durante as décadas de 80 e 90, e como todos sabemos a perdemos assim que o novo século iniciou. Antes de reaparecer brilhando em Stranger Things teve um breve êxito em Cisne Negro (2010), o que parecia o início do seu grande retorno às telonas. Mas não foi. E temo a dizer que Gone in the Night, da BoulderLight Pictures (envolvida na nova versão de Chamas da Vingança), é mais uma tentativa ruim de tentar tornar ela uma grande estrela de thrillers psicológicos, assim como A Carta (2012). 


Com direção de Eli Horowitz, que é responsável pelo roteiro ao lado de Matthew Derby, Gone in the Night tem uma narrativa fragmentada em eventos que se interligam em presente e passado, repleto de pequenas reviravoltas que tentam surpreender o telespectador. O filme a companha na pele da bióloga quarentona Kath, que junto do namorado, Max (John Gallagher Jr.) parte para um fim de semana numa residência alugada no meio do nada. E se tiramos alguma lição das histórias de terror, é que isso nunca acabou bem. Lá eles descobrem que o lugar tem outros hóspedes, sendo estranhamente recepcionados por Al (Owen Teague) e Greta (Brianne Tju), uma mulher voluptuosa de pose misteriosa que atrai pouco a pouco a atenção de Max, que ao invés de pegar o carro e fugir imediatamente com a amada, decide ficar e passar a noite com os estranhos. E como se isso fosse um livro do Harlan Coben, o cara desaparece junto da jovem mulher sem deixar rastros nos dias seguintes, com Kath aceitando calmamente a justificativa de que os dois se tornaram amantes da noite pro dia e fugiram juntos. E tenta seguir em frente nas próximas semanas, mesmo que instintivamente queira reencontrar com o (ex) namorado para pôr um ponto final definitivo.

Kath pode ser uma mulher esperta mas esse é apenas o começo de uma sucessão de erros, enquanto entra na gama de armadilhas dos estranhos. Quando começa a se mobilizar para saber sobre o local alugado, conhece o proprietário, Barlow (Dermot Mulroney) e tem uma espécie de flerte com ele. Há química no ar entre os dois atores, mas não é difícil supor o papel que o personagem vêm a assumir depois. O roteiro tem ao menos um elemento surpresa, que justifica a contextualização do interesse em biomedicina, filosofia existencialista e ciência dos personagens, mas dentro de todo o esquema cheio de facilitações absurdas acaba sendo enfraquecido demais. Lembram da Gillian Flynn? A autora por trás das obras adaptadas em Garota Exemplar (2014), Lugares Escuros (2015) e Objetos Cortantes (2018)? Horowitz e Derby mais parecem quererem se bancar como novos espertões dessa linha de thrillers inventivos. E mesmo com umas adições novas dentro do gênero, falharam miseravelmente. Todo o trabalho de direção de arte e fotografia contribuem para a identidade como suspense genérico. A face de Ryder é excessivamente explorada nos close-ups, querendo extrair uma expressividade maior. Talvez fosse melhor transformar isso num livro primeiro.

sábado, 25 de junho de 2022

Watcher (2022)


Concorrente do Grande Prêmio do Júri na Competição Dramática no último Festival de Sundance, Watcher é a estréia na direção de longas da americana Chloe Okuno (do seguimento "Storm Drain" em VHS 94), que já colecionava alguns prêmios pelo curta-metragem Slut (2014), e é uma das co-roteiristas do próximo hit da produtora A24, Bodies Bodies Bodies.


O filme inicia com a mudança de residência e país de Julia (Maika Monroe), uma ex-atriz, segundo ela mesma, com o marido Francis (Karl Glusman) para Bucareste, Romênia onde estão as raízes familiares, e um promissor novo cargo no emprego para ele. Tentando se habituar a rotina em longos dias enquanto ele está fora, Julia começa a perceber que é observada no prédio a frente por um desconhecido. O isolamento e a frustração com a barreira de estar em outro país, interagindo com os vizinhos e amigos do marido que falam uma língua que não compreende gradativamente contribuem para se começar a se sentir desgastada, ao ficar atenta em notícias sobre um assassino de mulheres pela região, que ganha a alcunha de "the Spider" pelos jornalistas, devida ao bárbaro modus operandis como as mata, o vizinho stalker então vira um grande incômodo em sua mente, sentindo o lar ameaçado, invadido e vigiado, mesmo que o estranho não tenha cruzado uma barreira de civilidade. 


É quando descobrir a identidade da figura masculina na janela se torna uma obsessão para a mulher, para poder voltar a estar em um estado de paz. É preciso dizer que é uma coisa um tanto previsível, essa premissa é conhecida por todos, mas Okuno sabe trabalhar a espiral de desconfiança, nos fazendo questionar se afinal, haveria porque uma sombra distante causar tanto dano? Ainda que nunca se coloque numa posição contrária à personagem, se trata mais de uma decisão que atenta para a presença da hostilidade da sociedade contra as mulheres e a dúvida sobre suas inseguranças. Francis tenta colaborar como um bom marido mas não é um aliado para ela nesse mistério. É sim, a vizinha de porta, Irina (Madalina Anea) que se revela uma agradável companhia, e que por falar inglês reduz sua solidão. Mas ao identificar o suspeito, suas vidas se entrelaçam de tal forma que a persistência em penalizar o desconhecido afetará todos ao redor.

O que impede Watcher de ser classificado como um suspense genérico sobre paranoia, é o tom soturno bem cuidado, e por Okuno saber filmar e criar planos belíssimos que ilustram perfeitamente bem a posição solitária em que está Julia, em constante tensão na residência e pelos espaços urbanos de Bucareste. O momento que a personagem adentra o cinema para uma sessão do clássico de Stanley Donley, Charada (1963) com Audrey Hepburn e Carey Grant é breve mas uma bela prova de execução para provocar um leve arrepio na poltrona. É fácil concluir que cineastas como Alfred Hitchcock e Louis Malle seriam inspirações da diretora, que afirma um interesse em trazer frescor pela perspectiva feminina nesse estilo de thriller de stalker, movendo o foco para a inquietação de sua protagonista e não nas atividades do invasor de sua privacidade. Não haveria melhor atriz aqui se não Maika, aliás, ela tem uma presença notável em cada enquadramento, se trata de um papel contido, é sobre uma mulher que luta silenciosamente contra a repressão afinal, as turbulências transbordam expressivamente em sua feição.


Se a pauta de gênero é uma segunda camada que pode ter uma leitura de forma consistente pelo público, Chloe falha em resolução de conflitos, e mesmo que o suspense seja um guia de interesse, nem tudo gera um grande engajamento, até mesmo há um descarte ou outro de elementos mencionados que poderiam aumentar a composição do filme, como um antigo vício em nicotina da ex-atriz, ou mesmo a afeição com Irina. O desfecho não chega a uma conclusão tão surpreendente, mas as proporções em que o roteiro avança faz com que seja memorável após a cena final, e também é preciso mencionar o desempenho de Burn Gorman. Chloe é sim uma diretora que começou a desenvolver uma identidade como cineasta, mas deixa a impressão de que poderia se comprometer e mergulhar um pouquinho mais para um resultado ainda melhor. Watcher ficará na memória por enquanto nesse segundo semestre de 2022, até pelo destaque de Maika Monroe no hall de performances, mas pode vir a ser ofuscado por outros títulos até o fim do ano. 

Assista Watcher aqui.

sábado, 7 de maio de 2022

Vildmænd/Wild Men (2021)

"É difícil entender o quão pouco tempo temos."


Um homem coberto por peles de animais chora em meio às paisagens das belas montanhas norueguesas na abertura de Vildmænd (Wild Men). O desequilíbrio emocional em contraste com a imensidão da natureza certamente é uma imagem que o dinamarquês Thomas Daneskov quer que tenhamos em mente logo de início, para desvendar quem é Martin (Rasmus Bjerg). O cinema da Dinamarca aliás é um dos que melhor produz exemplares que desmistificam o coração selvagem e a natureza errática da figura masculina, como visto recentemente em Druk (2020) e Loucos Por Justiça (2020), com o astro Mads Mikkelsen.


Uma ida até o supermercado termina de forma desastrosa para nosso protagonista, que sem dinheiro ou cartão de crédito, furta alimentos após agredir um dos funcionários do local. A passagem com o jovem caixa desconcertado ao ver o homem viking portando arco e flecha no estabelecimento é cômicamente marcante e está ilustrada no pôster de divulgação.


Enquanto na estrada, Simon (Marco Ilsø), Bashir (Jonas Bergen Rahmanzade) e Musa (Zaki Youssef), que pretendem ir até a região de Guddalen sofrem um acidente ao colidir com um cervo no caminho. Musa é o único a despertar consciente e ao não receber respostas dos outros homens, conclui que estão mortos, e parte sozinho para floresta onde mais tarde é encontrado por Martin, que o auxilia a tratar e costurar seus ferimentos, se tornam cúmplices para escapar de uma dupla da patrulha policial e assim começam uma pequena aventura juntos.
 

As motivações do homem para se jogar na natureza como um viking e o segredo que Musa esconde, contrabandeando haxixe serão determinantes para eclodir numa conclusão violenta mais à frente, enquanto o chefe do departamento de Polícia local, Øyvind (Bjørn Sundquist) segue o rastro em paralelo para tentar rastrear e prender Martin e os três homens identificados na estrada. Anne (Sofie Gråbøl) e as duas filhas pequenas, também participam deste cenário caótico à procura do homem que as abandonou sem notícias.


Daneskov e o roteirista, Morten Pape nos encaminho para um beco sem saída digna de um thriller criminal, mas que é apenas um pano de fundo para aproveitarem o argumento do encontro entre os três homens, para nos exibir as feridas que portam em seus interiores. Um momento que prova esse cuidado é a que mostra a volta para casa de Øyvind, sozinho na cama declamando amor para sua amada esposa. Com eles temos um vislumbre da perpetuação da cultura nórdica, que aparentemente tem sido menos celebrada que aqui pela América onde se cultua a imagem da supremacia do homem branco europeu...


E pegando o fio dessa observação, vale mencionar que Bjerg e Youssef já haviam contracenado em Filhos da Dinarmaca (imagem acima) em 2019, um filme dilacerante sobre o possível obscuro futuro da Europa, com a ascensão do discurso de ódio fomentada pelos ataques terroristas estrangeiros.


Wild Men pode não vir a ser um dos grandes exemplares do cinema dinamarquês, até por conta de sua tímida distribuição após uma vasta passagem por festivais como o de Toronto e Tribeca ano passado, no Brasil não há previsão para o lançamento do filme enquanto ele já está disponível na web. Mas é efetivo e levemente autêntico com a acidez honesta que desbrava a união masculina e o estranho laço que se forma no encontro entre esses estranhos com coração pulsante sem um lugar ideal na sociedade, ou sem saberem como encararem a si mesmos para tomar as próximas decisões pelas quais são cobrados.

2022 em 222 Filmes

Não é possível singularizar o cinema, sendo um vasto campo de linguagem visual e sonora. Pode ser um refúgio, quando não queremos nos inteir...