sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Morte, Morte, Morte (2022)

Após o sucesso repentino de X, a A24 retorna com um novo exemplar que parece seguir a cartilha slasher. Morte, Morte, Morte (Bodies Bodies Bodies) surgiu de forma criativa durante o ano passado como um projeto realizado sob as limitações da pandemia, reunindo um elenco pequeno de estrelas em ascensão em um único cenário. Com a atriz holandesa, Halina Reijn (Instinto, 2019) assumindo pela segunda vez em sua carreira o posto de direção. 

Começamos por testemunhar uma pontinha de insegurança sendo plantada na relação entre as jovens Sophie (Amandla Stenberg), e Bee (Maria Bakalova), nos minutos iniciais, antes de seguirem a estrada para uma reunião com os velhos amigos de Sophie. O resto do time de atores surge na tela sendo apresentados de forma bastante simbólica, em posições de cadáveres prestes a submergerem a água da piscina, da residência que pertence a família de David (Pete Davidson). O clima de ânimo parece propício para que Bee possa se integrar e se conectar com o grupo, mas não demora para que farpas venham à tona, por conta do passado de sua namorada. Na residência temos mais quatro pessoas: Alice (Rachel Sennott), com o namorado mais velho e hipster, Greg (Lee Pace), a namorada do anfitrião, Emma (Chase Sui Wonders), e Jordan (Myha'la Herrold). E antes do próximo amanhecer terão enfrentado a morte, ao iniciar a brincadeira que dá nome ao título, uma versão diferenciada dos clássicos jogos de detetive, enquanto uma forte tempestade se aproxima, que deixará o casarão escuro por toda a noite.

Com uma ação demarcada num período de 24 horas, tudo depende da interação entre o elenco. Reijn triunfa na forma como pretende aproveitá-los, sendo consistente em discurso, ainda assim o resultado é menos afiado do que se propunha inicialmente. A diretora havia anteriormente estabelecido uma visão firme e promissora em seu filme de estréia, que acabou sendo o representante da Holanda no Oscar 2020, e como atriz teve passagens por sets comandados por grandes diretores como Paul Verhoeven e Alex van Warmerdam. Sua experiência é nítida, e é o que lhe permite que não caia facilmente na armadilha de sobrecarregar sua narrativa com textos mega expositivos, personagens de arquétipos superficiais e irritantes, que costumam ser metralhadoras de referências à cultura pop, seguindo à risca o termo "white people problems", mesmo que esteja na intenção satirizar e causar instabilidade na confortável posição de alto status social em que se encontram presentes os personagens aqui, representantes da geração millenial sexualmente fluída.

O roteiro da dramaturga, Sarah DeLappe, que é baseado numa história criada por Kristen Roupenian, é eficaz em contornar a discussão sobre masculinidade tóxica, planejando sacadas espertas que esperam por serem reveladas até a cena final. A tensão é instalada gradualmente, com atos de violência sendo cometidos no decorrer dentro da residência mal iluminada, com um bom trabalho de direção de arte e fotografia, mas não a ponto de aproveitar muito do potencial de criar confusão e atingir níveis de insanidade ainda maiores. E se tudo não vai tão a fundo na loucura, o texto sabe defender o subtexto de cada personagem, que atravessa a superfície em momentos pontuais de tensão, quando o que está em jogo é a confiança entre eles. Nesse ambiente é divertido ver como pretende abalar a dinâmica entre as jovens: enquanto o ódio entre os homens é definido desde os primeiros instantes, as intrigas femininas precisam serem reviradas com pontas de faca, quase num sentido literal, para virem à tona. Maria Bakalova, Amandla Stenberg e Myha'la Herrold formam a combinação mais poderosa em cena. É uma dinâmica funcional, e após os créditos podemos ver como foi uma experiência divertida para os envolvidos na produção, mas que pode está fadado a ser um produto de efeito passageiro e momentâneo, não deixando maior impacto quando tudo se resume a um ato de estupidez. Morte, Morte, Morte está mais próximo da identidade de whodunit do que slasher, só para esclarecer como o marketing tem sido vendido. E como incursão por esse gênero, mesmo que garanta altas risadas se consumido desprentensiosamente, é inferior se comparado a outros feitos anteriores nele. Não é o melhor investimento de uma produtora como a A24 este ano, mas ainda pode ser aproveitável para a temporada de Halloween, que ainda espera por grandes títulos aparecerem.

Bodies Bodies Bodies pode ser visto legendado aqui.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

What Josiah Saw (2021)


O espírito gótico, marcado pelo sobrenatural, loucura e a morte move What Josiah Saw, filme concebido pelo californiano Vincent Grashaw (dos chocantes dramas sociais Coldwater e And Then I Go) que assume direção, produção e edição. Recebido com diversos elogios desde o Fantasia Film Festival, chegou a estar em diversas listas como um dos grandes títulos do horror em 2021. Tendo chegado no circuito brasileiro através do Fantaspoa em Porto Alegre meses atrás. E lançado na Shudder em Agosto passado.


What Josiah Saw demorou cerca de seis anos para enfim ver a luz do dia, vindo na nova onda de thrillers independentes e autorais, e temos um bom vislumbre de um projeto tão bem cuidado e original. Percorre por cenários atuais nos Estados Unidos, confrontando a vastidão desoladora herdada das pequenas e caóticas comunidades rurais, e sobretudo os demônios que advém do seio famíliar nesse espaço. O elemento gótico é o motor espiritual para o exercício de gênero e storytelling que Grashaw e o roteirista, Robert Alan Dilts habilmente vão construindo, estabelecendo a narrativa em capítulos, que se desenvolvem antologicamente e se complementam em tempo. Tudo começa com o interesse na compra de uma propriedade de terras no Texas, uma fazenda no nome da família Graham. Tommy (Scott Haze) e o patriarca Josiah (Robert Patrick) são os únicos administradores presentes, a convivência no entanto, é ditada de forma estranha. O homem que teve uma vida recém arruinada sem muitas explicações, na casa em que cresceu ainda se vê nas sombras do poder paterno. Josiah tem um porte arrogante e de ar violento, parecendo gostar de exercer um controle nocivo no filho. Uma história de fantasmas permeia o local, considerado amaldiçoado por uma tragédia do passado entre a família. É então que uma noite, Josiah tem uma visão que inexplicavelmente promoverá uma futura reunião com seus outros filhos, para uma espécie de acerto de contas e mágoas. O capítulo inicial termina e corta para acompanharmos divididamente o ex-presidiário, Eli (Nick Stahl) e a dona de casa deprimida, Mary (Kelli Garner) imersos em suas diferentes realidades.


Tentando pagar uma alta dívida, Eli é forçado por Boone (Jake Weber) a adentrar um acampamento de ciganos, que guarda algo de valioso. É quando Grashaw vai promovendo uma experimentação narrativa, o Capítulo de Eli reserva momentos de horror paranormal e tensão criminal, como a que estamos acostumados a testemunhar no cinema de S. Craig Zahler, ou mesmo Vince Gilligan. Com um interessante momento que nos contextualiza nos terríveis eventos da 2⁰ Guerra Mundial, é uma incursão sobre a ganância em confronto com o bom moralismo que Eli tenta preservar. Afinal Stahl continua tomando forma do nosso salvador, John Connor. Ou é o que acreditamos por um instante, até o seguimento focado em Mary e o posterior, com a reunião de família nos colocar perante grandes revelações.


What Josiah Saw tem uma concepção audaciosa para discutir os males que herdamos de nossa família, como resultado de problemas geracionais, como alcoolismo, depressão, psicose, ou até danos irreversíveis como a remoção de um útero (!). Há uma maldição, uma força sobrenatural que planeja colidi-los mas o horror é fruto das relações pessoais, e é nesse plano que Grashaw finca bem raiz. Robert Patrick não está a frente de toda a ação, mas no pouco em que aparece é assustador e autor de ações doentias. Scott Haze, que também investiu na produção do filme é notável pelo semblante frustrado e frágil, ainda como a criança que era quando sua vida começou a desmoronar. Mas nem tudo é digno de elogios, o último ato é tomado por uma força feroz e quando introduz um novo ponto de vista, parece desabar toda a construção vista até ali, como um castelo de cartas enfrentando uma ventania. Terminamos sem reação, tendo que engolir sem saber como processar o que acabamos de presenciar, mas é difícil não ter aproveitado o caminho até ali.

Vejam o filme legendado aqui.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Passei Por Aqui (2022)


A nova produção original da Netflix, Passei Por Aqui/I Came By com direção do britânico-iraniano Babak Anvari (Sob a Sombra, 2016), cujos dois filmes anteriores também estão disponíveis na plataforma de streaming, parte de argumentos bem previsíveis para tomar forma própria. O atual cenário da imigração na Inglaterra, que deixa diversos estrangeiros desesperados por amparo, e sob uma crescente marginalização, assim como o campo político e social inglês são o pano de fundo onde o filme ocorre. Nele acompanhamos Toby Nealey (George MacKay), filho da psicóloga Lizzie (Kelly Macdonald), um jovem que ainda não encontrou direção na vida, muito por conta da atitude irreverente e inconformado com a sociedade, tendo como segredo sua identidade como o pichador responsável pela marca "I Came By", que ganhou notoriedade por se tornar o terror dos ricaços preocupados com a defesa da propriedade privada.


O amigo (de etnia negra) de longa data, Jay (Percelle Ascott) está saindo do esquema de pichação ilegal para tentar cuidar da namorada grávida, a imigrante Naz (Varada Sethum), logo quando Toby encontra o local ideal para a próxima, na residência do ex-juiz, Hector Blake (Hugh Boneville) onde Jay esteve trabalhando. Agindo sozinho, a invasão ocorre mas não sai como esperado quando encontra fotos e o local onde o homem esconde um segredo. O resto o telespectador pode prever. Ou não.


O dimensionamento dos conflitos entre os personagens é que gera o grande diferencial aqui, saindo do cerne comum onde costuma estarem histórias do tipo, expandindo a premissa para atingir a mensagem que pretende alcançar. Há espaço para cada um assumir ou estar em foco da narrativa, em determinado ponto temos Liz no comando, como uma mãe determinada a desvendar o mistério por trás do desconhecido. Blake está sempre atento com o sistema de segurança, faz saídas mas deixa a casa aberta, e até mesmo chaves como uma grande piada brincando com o telespectador que acompanhará sem poder fazer nada suas próximas ações. Partindo da sala de atendimento da psicóloga, onde Faisal (Antonio Aakeel) desempenha notável função, até o drama de Jay com Naz, o roteiro escrito por Anvari e Namsi Khan é bem amarrado, e esforçado em criar e sustentar subtextos e ligações. A cena onde entrega as informações necessárias para entender as motivações do vilão é um momento a se destacar pela forma como planeja uma dinâmica, onde testemunhamos melhor sua forma de cometer crimes.


Babak Anvari joga com as próprias regras em Passei Por Aqui. É uma revisão estruturalista da cartilha do home invasion como Homem nas Trevas (2016), e até poderia ser visto como um Corra (2017), à sua própria maneira, que segue por direções que podem não ser muito atraentes para os amantes do gênero, mas que tem muito a oferecer dentro do desenvolvimento pelo olhar complacente às questões sociais em que estão inseridos seus personagens, e levemente dilacerante quando encara o destino dos mesmos. Mesmo com o ditadismo e como não os livra de estarem em situações que põem em dúvida a racionalidade. Até mesmo essa sequência de eventos absurdos carrega um tom divertido por saber como demonstrar para o telespectador que não está ileso, e à mercê do sistema capitalista beneficente aos mais abastados. Da classe média confortável, às forças policiais, até aos imigrantes lutando por estadia, ninguém pode pôr um fim às ações monstruosas de Hector Blake, que se aproveita da máscara da alta sociedade para poder sair impune e satisfazer seu senso torpe e sádico por vingança. Kelly Macdonald sob uma face aflita e um George MacKay exposto de forma tão vulnerável é marcante. É preciso se mencionar o tom de humor distorcido ao fazer uma menção a Capitão Fantástico (2016), onde o ator inglês tão bem ficou conhecido, que garante uma risada nada feliz. O jovem e também escritor, Percelle Ascott, nascido no Zimbábue tem um bom desempenho, que ao finalmente tomar o centro de ação garante um desfecho satisfatório.

Anvari opta por encerrar o filme ao som da famosa balada do Tears for Fears, Everybody Wants to Rule the World que não por acaso, de relevância lírica com alusão à corrupção humana e política, tem a voz de Roland Orzabal, de descendência espanhola e argentina, além da banda ter sido grande representante nos anos 80 do espírito rebelde e revolucionário que também acompanha alguns dos personagens, e diria que encerra bem todo o intuito em refletir através dessa experiência do cinema de gênero a nossa força enfraquecedora diante do sistema burocrático e injusto que dita nossas vidas.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Trailer: Ruído Branco x TÁR


Prestes a estrear no Festival de Veneza no dia 31, a Netflix divulgou o primeiro teaser trailer de Ruído Branco. O novo filme com direção de Noah Baumbach (História de Um Casamento), baseado no grande livro do Don DeLillo. No meio do ano o havia lido e já estava bem empolgado para ver como seria uma adaptação cinematográfica dele, que possui um texto e personagens tão particularmente excêntricos, e surpreso que aqueles que não seriam minha primeira escolha, Adam Driver e Greta Gerwig parecem bem personificados como Jack e Babette, o casal paronóico por ter que enfrentar um dia a morte. Ainda sem data.


E a Focus Features também lançando trailer de um dos competidores este ano em Veneza, TÁR que marca o retorno de Todd Field (Pecados Íntimos, 2006) no cinema. E fiquei extremamente surpreso pelo que ele parece propor com a Cate Blanchett aqui, na pele de uma compositora alemã. Com uma aura de GRANDE FILME, as sequências de imagem da tensão física da atriz junto ao que parece uma sessão de fotografias é hipnotizante. Em 7 de Outubro chegando aos cinemas (mas não aqui no Brasil, claro).

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

A Órfã: A Origem (2022)

É difícil para mim assimilar como já se passou tanto tempo desde que o espanhol Jaume Collet-Serra nos entregou A Órfã (Orphan, 2009), o suspense que me gelou a espinha quando exibido dois anos mais tarde na programação do SBT. Baseado numa macabra história real, que deu o status instantâneo de novo ícone do terror para Esther (Isabelle Fuhrman), a garotinha de aparência inocente que revelava não ser uma simples garotinha, para o desespero da família da Vera Farmiga. A cogitação de uma sequência sempre esteve no boca a boca do público, ansioso por ver mais da personagem, mesmo que o criador de argumento da personagem, Alex Mace houvesse dado um ponto final para ela no grande clímax. Mas a história da mulher adulta presa no corpo de criança era certamente difícil de ser esquecida, e continuou a ressoar como uma lenda urbana no imaginário popular, até que enfim a Dark Castle junto a eOn dois anos atrás tiveram uma ideia nova, após serem contatados por Isabelle Fuhrman e anunciaram a sequência, que não seria bem uma sequência... Mas sim um prequel que acompanha a residência anterior da assassina, antes dos eventos em 2009, com Fuhrman retornando como protagonista. Onze anos atrasados, e com a distribuição da Paramount, Esther está entre nós novamente.

Situado no ano de 2007, a ação tem início no The Saarne Institute localizado em algum lugar da Estônia, a partir da chegada de Anna (Gwendolyn Collins), uma funcionária da Assistência Social com um propósito não muito claro na instituição, o Asilo de internamento para pacientes com problemas mentais, aonde encontra Leena, a verdadeira (?) identidade da mulher-criança. Não demora muito para ela arquitetar a fuga, como Michael Myers fugindo da ala psiquiatra, e de forma violenta manipulando um guarda pedófilo deixa o Instituto e escapa para longe graças a oportunidade que enxergou com a chegada da mulher. Mais tarde ela é encontrada por um agente de Polícia e assume a identidade de Esther Albright, uma garotinha desaparecida que descobriu no sistema de crianças desaparecidas, que compartilha similaridade com ela. E é assim que parte para a região de Connecticut nos Estados Unidos, para se encontrar com a influente família Albright, formada por Tricia (Julia Stiles), o marido Allen (Rossif Sutherland) e o filho mais velho, Gunnar (Matthew Finlan).


O roteiro de David Coggeshall (de Evocando Espíritos 2, curiosamente também ambientado em Connecticut), reutiliza a estrutura vista no primeiro longa, com o telespectador testemunhando passo a passo as mesmas ações da vilã com a nova família, com a iminente tragédia à espreita. O grande dilema ao se realizar um prequel é: como estabelecer a ameaça quando já a conhecemos? Pois há surpresas à frente. O diretor William Brent Bell (colecionador de péssimos filmes como Boneco do Mal 2), primeiramente utiliza a personagem como uma carniceira extremamente manipulativa, talvez para tentar fazer jus à fama conquistada, a colocando para agir e matar inescrupulosamente, para então com a família, mudar a dinâmica revelando que ela não é mais a maior ameaça presente nesta sequência. Depois de tantas facilitações narrativas, chegando ao exagero nas ações da personagem (e voltando a citar o mascarado de Halloween, há até mesmo um momento absurdo que a coloca sob o volante de um carro), essa mudança brusca consegue trazer um ar divertido, e é o que o diferencia do filme anterior. Sem entrar em maiores detalhes, a perspectiva muda e a nossa aflição está em ver como a assassina se livrará de sua nova vida.

Para um filme intitulado como A Origem, ou First Kill (a primeira matança), na realidade não há uma verdadeira expansão na mitologia por trás de Esther, continuaremos a não saber sobre o seu nascimento e infância, e sequer retratam o seu primeiro homicídio. Os eventos mostrados aqui, principalmente com a interação familiar existem para explicar as habilidades demonstradas pela personagem nos futuros acontecimentos com os Coleman. Gunnar é praticante de esgrima e Allen, o homem que rapidamente conquista a afeição da falsa filha é um pintor, que a ensina sobre a técnica da reflectografia de infravermelho. Tricia é uma figura materna de mente calculista e imponente, com uma boa composição de Stiles, quase chegando a altura da força que representa Esther. Há um contratempo com a intromissão do detetive Donnan (Hiro Kanagawa), que até cumpre alguma função. Isabelle Fuhrman volta a preencher o icônico papel com vividez, ainda que tirem parte de sua força assustadora. A violência vem em boas doses, ainda que poucos confrontos físicos ganhem melhor aproveitamento cênico. O responsável pela cinematografia é ninguém menos que Karim Hussain, o diretor de Subsconscious Cruelty (2000), e que recentemente fez um belo trabalho na fotografia de Possessor (2020). E falando sobre a grande questão, sobre como conseguiram voltar com a atriz adulta no papel de criança, driblando o grande uso de CGI com técnicas de maquiagem e ângulos de câmera, seu rosto causa muita estranheza inicialmente. Quem estiver afim de criticar a produção, fará a festa. É preciso também mencionar a importância da participação da dublê, Kennedy Irwin, de 11 anos.

A Órfã: A Origem termina por não acrescentar muito ao que já se sabia anteriormente, e pouco se equipará ao impacto do primeiro exemplar, apesar das voltas criativas. E preciso afirmar como é até um pouco surpreendente como William Brent Bell não fez disso um desastre total, ainda que o argumento sofra de diversos equívocos e problemas. Para quem gosta de falar sobre tais "furos de roteiro", terá assunto de sobra, ao contrário daqueles que forem mais descompromissadamente conferi-lo para prestigiar a graciosidade perigosa de Fuhrman. Pode ser resumido essencialmente como uma tragédia romântica, uma jornada sobre a desilusão da personagem, que a tornou cruel e implacável até encontrar os Coleman. O caminhar por entre as chamas em sua parte derradeira, é o ápice desse apelo plástico, que clama por a imortalizar na cultura pop, e que por esse breve momento cumpre perfeitamente sua função.


O filme deve chegar em Setembro nos cinemas nacionais, mas se pode conferir A Órfã: A Origem com legenda provisória aqui. Ou aqui.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Glorious (2022)

Filmes que tiram proveito da encenação em um único local tem um espaço especial no coração do público, indo do estrondoso Cães de Aluguel (1992), ao popular Jogos Mortais (2004), ao menos badalados mas com algum status cult como Espinhos (2008). Produções pequenas e independentes que cativam pela inventividade e capacidade em saber como concentrar a narrativa em determinado local. O novo exemplar dessa linha de gênero, Glorious é uma produção estadunidense pequena como os citados, exibido com sucesso no Fantasia Film Festival, o que atraiu o interesse da plataforma de streaming, Shudder em adquiri-lo, tendo sido lançado ontem (17/08).


A premissa certamente chama atenção de cara: um homem preso em um banheiro com uma criatura mitológica que se comunica através do buraco de um dos compartimentos. O azarado da vez é Wes (Ryan Kwanten), que vemos caminhar nervoso de um lado para o outro num estacionamento à beira da estrada, evidentemente desnorteado por causa da aparente separação da sua companheira, Brenda (Sylvia Grace Crim). Tendo como única companhia um ursinho de pelúcia no carro e a canção "Wait' Till the Sun Shines" do grupo The Bell Sisters & Bing Crosby, o homem entra em estado de surto, mais tarde quando acorda com o estômago enjoado parte para o banheiro do local, e não sai mais. Uma voz (a de ninguém menos que J.K. Simmons) então o acompanha na cabine do lado, através de um buraco acompanhado por um desenho obsceno com vários olhos na madeira, apresentando um tom amigável mas que não demora a se demonstrar uma presença estranha e perigosa conforme vai revelando sua identidade e intenções. A ilustração não está lá apenas para indicar uma piada de mal gosto, mas determinar quem é que habita aquele ambiente.


A partir daí não se pode revelar mais detalhes. O que há de mais surpreendente em Glorious, é como Rebekah McKendry soube sustentar o argumento na direção. Adentrando o universo fantasioso do horror cósmico fortemente estabelecido pela influência na literatura de H.P. Lovecraft, ela trabalha uma dinâmica que parece que não vai conseguir se alavancar de início, muito pela limitação de orçamento, mas que com a presença da voz de Simmons ganha outra forma, sendo envolvente ao fisgar o telespectador para saber que rumo essa trama absurda tomará. Há poucos contratempos com personagens adicionais para afetar a interação dos dois personagens em seus quase 80 minutos, o que o deixa mais objetivo, embora possua um twist que soa excessivo e desagradável envolvendo o conflito amoroso, que é um elemento bastante determinante ecoando uma força central para o protagonista. Há um bom uso de efeitos em CGI e a utilização de efeitos de animação, embora nem fosse muito necessário dá forma completa a sua grande ameaça, e essa estética neon/roxa já esteja se tornando saturada no uso do retratamento do universo psicodélico e Lovecraftiano, vide as produções da SpectreVision. O trabalho de câmera não chega a ser tão criativo mas é pela comando do fio narrativo que se sobressai, reservando momentos de insanidade no auge da exaustão psicológica em que se encontra Wes, até culminar na profusão de violência e sangue, além do flerte com o humor e as piadas inevitavelmente penianas (!).


Em última instância é uma curiosa e niilista análise das forças existenciais predatórias que dá um tom pessimista que fecha bem o longa, em harmonia com o confronto com a natureza humana que o universo do Lovecraft propõe, pois afinal sempre foi pela limitação da capacidade humana de lidar com o desconhecido que se dava início o horror. O olhar feminino sobre a masculinidade nociva presente nisso também pode ser apontado, ainda que não seja tão assumido a ter um viés feminista ou mesmo queer, como esperado inicialmente pela alusão a prática do Glory Hole. No mais, é uma boa surpresa sendo curto e bem executado, bem defendido pela performance dramática de Kwanten, que desde que ganhou as telas ao estrelar Gritos Mortais (2007), de James Wan demorou a retornar ao gênero, ou mesmo fazer uma nova boa produção. E por mencionar Wan, é possível afirmar que há certa inspiração no seu mais famoso trabalho lá em 2004, pelo objetivo num todo do que é ditado pela criatura que Simmons dubla.

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Gone in the Night (2022)

Winona Ryder dispensa apresentações como um dos grandes nomes do cinema estadunidense durante as décadas de 80 e 90, e como todos sabemos a perdemos assim que o novo século iniciou. Antes de reaparecer brilhando em Stranger Things teve um breve êxito em Cisne Negro (2010), o que parecia o início do seu grande retorno às telonas. Mas não foi. E temo a dizer que Gone in the Night, da BoulderLight Pictures (envolvida na nova versão de Chamas da Vingança), é mais uma tentativa ruim de tentar tornar ela uma grande estrela de thrillers psicológicos, assim como A Carta (2012). 


Com direção de Eli Horowitz, que é responsável pelo roteiro ao lado de Matthew Derby, Gone in the Night tem uma narrativa fragmentada em eventos que se interligam em presente e passado, repleto de pequenas reviravoltas que tentam surpreender o telespectador. O filme a companha na pele da bióloga quarentona Kath, que junto do namorado, Max (John Gallagher Jr.) parte para um fim de semana numa residência alugada no meio do nada. E se tiramos alguma lição das histórias de terror, é que isso nunca acabou bem. Lá eles descobrem que o lugar tem outros hóspedes, sendo estranhamente recepcionados por Al (Owen Teague) e Greta (Brianne Tju), uma mulher voluptuosa de pose misteriosa que atrai pouco a pouco a atenção de Max, que ao invés de pegar o carro e fugir imediatamente com a amada, decide ficar e passar a noite com os estranhos. E como se isso fosse um livro do Harlan Coben, o cara desaparece junto da jovem mulher sem deixar rastros nos dias seguintes, com Kath aceitando calmamente a justificativa de que os dois se tornaram amantes da noite pro dia e fugiram juntos. E tenta seguir em frente nas próximas semanas, mesmo que instintivamente queira reencontrar com o (ex) namorado para pôr um ponto final definitivo.

Kath pode ser uma mulher esperta mas esse é apenas o começo de uma sucessão de erros, enquanto entra na gama de armadilhas dos estranhos. Quando começa a se mobilizar para saber sobre o local alugado, conhece o proprietário, Barlow (Dermot Mulroney) e tem uma espécie de flerte com ele. Há química no ar entre os dois atores, mas não é difícil supor o papel que o personagem vêm a assumir depois. O roteiro tem ao menos um elemento surpresa, que justifica a contextualização do interesse em biomedicina, filosofia existencialista e ciência dos personagens, mas dentro de todo o esquema cheio de facilitações absurdas acaba sendo enfraquecido demais. Lembram da Gillian Flynn? A autora por trás das obras adaptadas em Garota Exemplar (2014), Lugares Escuros (2015) e Objetos Cortantes (2018)? Horowitz e Derby mais parecem quererem se bancar como novos espertões dessa linha de thrillers inventivos. E mesmo com umas adições novas dentro do gênero, falharam miseravelmente. Todo o trabalho de direção de arte e fotografia contribuem para a identidade como suspense genérico. A face de Ryder é excessivamente explorada nos close-ups, querendo extrair uma expressividade maior. Talvez fosse melhor transformar isso num livro primeiro.

2022 em 222 Filmes

Não é possível singularizar o cinema, sendo um vasto campo de linguagem visual e sonora. Pode ser um refúgio, quando não queremos nos inteir...