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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Resurrection (2022)


Há certas narrativas absurdas que só chegam perto do crível por terem um diretor com visão bem estabelecida por trás, como o caso de Yorgos Lanthimos (O Sacrifício do Cervo Sagrado), ou Julia Ducournau (Titane) que causam estardalhaço, e construíram uma imagem autoral em torno desse efeito, de atribuir choque e estranheza com habilidades hipnotizadoras, flertando nos campos do irracional e místico. Isso também pode ser uma tarefa difícil para iniciantes, e me adiantando, é o que Andrew Semans (Nancy, Please) realiza corajosamente em Ressurection. Produção que conta com investimento de diversos nomes envolvidos em projetos independentes de horror de sucesso, como Lars Knudsen (Hereditário e A Bruxa), Tim Headington (Come to Daddy) e Michael M. McGuire (Daniel Isn't Real).


Tendo como grande chamariz Rebecca Hall, que também se faz presente como produtora, Resurrection se trata de um projeto que confia em seu pequeno time de atores para tirar de letra as intenções do roteiro de Semans. Acompanhando Hall no papel de Margaret, uma mulher atualmente bem sucedida, que mora com a filha, Abbie (Grace Kaufman) e que faz uso de uma identidade nova por motivos que descobrimos pouco a pouco, quando ela percebe a presença de David (Tim Roth) ao seu redor, acendendo um sinal de perigo para a mulher. A filha está para completar a maioridade, o que também se torna um conflito desafiador para Margaret, quando a instabilidade é instalada, trazendo inquietação e insegurança para si mesma e o seu lar, conforme o velho homem se aproxima. A partir de diante, tudo que podemos fazer é seguir o rastro ameaçador de que ela chega cada vez mais próxima.

Preparando terreno para uma catarse violenta, a condução de Semans é econômica, trabalhando espaços interiores e valorizando zooms e close-ups em muitos diálogos, para criar uma unidade diagética e de mise-en-cène poderosa. Se o público pode reclamar de certa monotonia, é porque justamente se trata de um filme que implode, que trabalha minimamente todo o percurso, que busca revirar o horror através do texto, provocando reações até mostrar sua verdadeira face, que é a loucura. A trilha sonora composta por Jim Williams (Kill List, Raw e Possessor) também é de se destacar por se alinhar ao controle narrativo. Quando exibido no Festival de Sundance em Janeiro, houve comparações com o cinema do polonês Andrzej Żuławski, e não feitas por acaso, quando se equivale pelo trabalho verborrágico, tenso e que busca confrontar conceitos racionalmente inconcebíveis, para ilustrar a desordem que predomina a realidade narrada. Também é possível apontar inspiração na mitologia grega, tal como ocorre nos exemplares citados de Ducournau e Lanthimos no início do texto. Mas se trata resumidamente de uma aventura surreal que toca em feridas de problemas femininos de uma forma original e nada óbvia, buscando discutir dependência emocional, relacionamento abusivo, controle e temores maternais. Terminando de forma indigesta, mesmo que possa não ter sua conclusão bem aceita por todos, é admirável como um filme de estréia por assumir riscos e lugares desconfortáveis. E será difícil não considerar este o GRANDE trabalho da carreira de Rebecca Hall.

Resurrection pode ser visto legendado neste link.

PS: E talvez uma coincidência ainda mais bizarra, é como a história de certo personagem de A Hora de Aventura se assemelha aos eventos do filme.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Trailer: Crimes of the Future (2022)

Divulgado pela NEON o trailer redband de Crimes of the Future, o retorno de David Cronenberg que compete este ano à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Sua última excursão ao cinema havia sido em 2014 com o estranho drama sobre Hollywood, "Mapa Para as Estrelas".

Não é necessário dar muitos detalhes, mas sabemos que a trama ambientada num futuro (talvez não tão) distante, acompanha Saul Tenser, um performer artístico interpretado por Viggo Mortensen, que ao lado de sua parceira, Caprice (a musa Léa Seydoux) se apresenta exibindo suas modificações corporais. Kristen Stewart adentra esse cenário como Timlim, alguém muito interessada em ver mais do trabalho do artista.


"Crimes of the Future é uma meditação sobre a evolução humana… as maneiras pelas quais tivemos que assumir o controle do processo porque criamos ambientes tão poderosos que não existiam anteriormente”, assim como também "[É) uma evolução das coisas que eu fiz antes" e "Essa é uma continuidade do meu entendimento da tecnologia ligada ao corpo humano", afirmou Cronenberg.


Curiosamente, Crimes of the Future também foi o título de seu segundo longa em 1970, que imaginava o futuro de 1997 como um mundo sem mulheres após um erro no desenvolvimento da indústria cosmética que ocasionou a criação de uma praga viral. No entanto, não parece haver ligações entre eles.


A capacidade do diretor reverenciado por A Mosca (1986) e Crash - Estranhos Prazeres (1996) dispensa comentários e o filme já classificado como Rated R comercialmente, certamente vem com a promessa de provocar o público visualmente com muita violência, erotismo e bizarrices, voltando a arrasar o Festival de Cannes após a vitória histórica do body horror feminino, Titane no ano passado.

As filmagens ocorreram na Grécia no fim do ano passado e no elenco também estão Scott Speedman, Welket Bungué, Don McKellar, Lihi Kornowski, Tanaya Beatty, Nadia Litz, e Yorgos Pirpassopoulos, Yorgos Karamihos, Denise Capezza e Jason Bitter. Muitas caras novas no cinema do canadense esquisitão, assim como também conta com a direção de fotografia do desconhecido (para mim) Douglas Koch, mas repete a parceira de sucesso com o compositor Howard Shore.

Ainda sem previsão no Brasil, Crimes of the Future deve ter sua primeira exibição no dia 23 de Maio em Cannes, e a partir de 03 de Junho chega nos cinemas de Los Angeles. Mas não teremos que esperar tanto desde que supostamente o Blu-ray deve ser lançado em 09 de Agosto, o que deve indicar o lançamento em VOD (Video on Demand) em algum momento de Julho. E darei um jeito de comentar mais de Cronenberg por aqui até lá.

2022 em 222 Filmes

Não é possível singularizar o cinema, sendo um vasto campo de linguagem visual e sonora. Pode ser um refúgio, quando não queremos nos inteir...